29.04.2008 | Música | Ao Vivo
Chega a hora de «levantar o cu das cadeiras e acabar com esta merda de uma vez para sempre»
José Mário Branco esteve no Theatro Circo, em Braga, para entrar no dia da Revolução dos Cravos pela porta grande. Nem o preço dos bilhetes, nem a oferta fora da sala dourada conseguiram afastar o público.
Theatro Circo, Braga,
24 de Abril de 2008
«Que horas são? É meia-noite? Então, parabéns.» O menino
desta história é José Mário Branco a passar a noite de 24 para 25 de Abril,
esta última, com companheiros e amantes, enternecidos e sonhadores, mais os
loucos convictos – como ele próprio. Plateia repleta no Theatro Circo, em
Braga, para assinalar os 34 anos sobre a Revolução de Abril, em 1974.
Ele, sozinho, guitarra, água, intenso, entra no palco com a
naturalidade nascente das fontes. Vem com a voz, vai de banco para as canções,
atira-as ao mundo, vai a metáfora, vai a alegoria e a raiva, a pungente raiva
de tristeza dura, profunda, dos incumprimentos. Aos 34 anos sobre os cravos, as
canseiras desta vida não levam bicicleta, não levam pedais, nem ouro, nem
prata. E o que há a fazer? «Talvez mudar de vida. Levantar o cu das cadeiras e
acabar com esta merda de uma vez para sempre. Se forem passivos, a culpa é
vossa, como dizia o outro.»
E o outro é ele, José Mário Branco, a um mês dos 66 anos,
«do Porto», «português, pequeno-burguês, filho de professores primários,
artista de variedades, compositor popular, aprendiz de feiticeiro». Vai da
frente para trás, de Resistir é Vencer (2004) para O charlatão e brinca com a actualidade da canção – diz que a
escreveu com o Sérgio Godinho três dias antes a propósito da crise no PSD. Dá Poder, dá As contas de Deus e encontra A
menina dos meus olhos.
Já estamos no passado, na manutenção sincrónica do punho
certeiro de José Mário Branco. E ele sabe-o, quando parte para os discos do
passado: «Vamos ficar tristes ou ficar contentes com estas músicas antigas
muito actuais?» Tristes. Assinala-se o 25 de Abril e, dentro de menos de uma
hora, um cravo vai voar direitinho ao palco, José Mário vai pegar-lhe,
levantá-lo, pô-lo alto, fitá-lo, forçar o punho, aquele punho de Inquietação, de Casa comigo Marta, e lançar-lhe aquele olhar armado.
José Mário Branco puxa do ‘mestre’ Antero, puxa de Sophia,
puxa da cantiga – que «é uma arma» –, da ironia e da inteligência do
comentário, puxa da Grândola para
explicar a gravação daqueles passos arrastados no início, gravação de moda
alentejana dele próprio mais o José Afonso e o Sérgio Godinho (a que aqui
juntamos o Fausto e montamos o quarteto fantástico da canção de intervenção
portuguesa), ele vai e volta a tocar, o público de pé, uma, duas, três vezes,
uma ovação de desiludidos de Abril, como ele, de encantados da música e da
poesia, como ele.
E acaba: «Até sempre, meus amigos.» Mas qual até sempre? Até agora –
estamos aqui. Já fomos vindouros, cabrões de vindouros. Mas agora estamos aqui,
queremos ser felizes, porra! Somos velhos e novos, com e sem o Abril original,
mas ninguém sai daqui com a mesma voz. Quem vai? Quem vai, com pena sai e toca
pouco, grava pouco – vem de longe. Quem fica, conta com ele, José Mário Branco,
para cantar e para o resto.
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