21.03.2009 | Teatro | Ao Vivo
Pirandello dos infinitos teatros dentro do teatro
Esta Noite Improvisa-se, obra-prima de Pirandello, está em cena no Teatro Nacional D. Maria II até 5 de Abril. A versão é assinada pela Companhia Artistas Unidos e o RASCUNHO já a viu.
«Porque temos medo de estar sozinhos na noite, perante os cacos da vida, ou não é por isso que nos juntamos no teatro?» (Jorge Silva Melo)
Rosnar, colocar o público numa posição desconfortável, mostrar-lhe os dentes: teatro é o quê? «Arte sim, mas vida também». Quem vem ao engano, tem sempre a porta aberta para sair. Conhecer a obra do autor? «A única forma de conhecer uma obra seria se ela pudesse representar-se a si própria». Com que então «no teatro a obra deixa de existir»? Tudo bem, fico.
Deixemos as coisas bem claras, Esta Noite Improvisa-se, o texto, a obra que neste palco acaba de deixar de existir, é uma obra-prima da literatura, da filosofia, do pensamento. Mente criativa, a de Luigi Pirandello, incapaz de perder a lucidez mesmo quando arrisca colocar o teatro dentro do teatro (e, em situações mais extremas, o teatro dentro do teatro dentro do teatro dentro do teatro).
E a premissas destas não é fácil resistir, por muitos rosnares e desconfortos que se ofereçam a uma plateia constantemente bombardeada com focos de luz. Mensagem clara: o público faz parte da cena, no teatro ninguém deve ficar impune. Ainda assim, os Artistas Unidos saem (continuam até 5 de Abril e saem) do Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, com nota positiva. O que é uma nota, vale quanto comparada com a vida que a cada momento nasce em palco, nas páginas imortais do Nobel da literatura de 1934?
Feito o enquadramento, coloquemos (destaquemos) quatro factos (factos?) num arco cronológico abreviado: estrondosa encenação de uma procissão siciliana, intimidante intervalo de quinze minutos em que as personagens (sempre em cena) se espalham por toda a casa, pelo cigarro no exterior, pelas conversas cruzadas nos corredores, no palco (e o público que faz? Pode sair e chocar com as personagens. Mas também pode ficar. E chocar com as personagens), voz e monólogo arrebatadores de Sílvia Filipe (e/ou Mommina La Croce).

Depois há o contínuo desalinhamento, as personagens que tanto são Lia Gama como a ‘generala’, Pedro Lacerda como Rico Verri, em constantes jogos de improvisação fingidos. O actor/personagem que se cansa do excesso de liberdade em palco, que exige um texto, um guião rigoroso, farto de ser instrumentalizado pelo encenador/actor. O núcleo da encenação (qual? A da personagem que faz de encenador (António Simão), a do próprio encenador (Jorge Silva Melo), a do encenador imaginado pelo autor?) assenta no paradoxo que obriga o público a constantes exercícios de especulação para adivinhar se a personagem é mesmo ela própria a tempo inteiro ou se é vítima da vida que nela nasce a qualquer momento. A criar duas gavetas paralelas para onde vai atirando, depois de separada, a informação.
Nada disto é inocente, no entanto. Pirandello, o autor, Jorge Silva Melo, o encenador, ambos, nenhum, enganam propositadamente o espectador para que ele possa mais facilmente encontrar a verdade. Provocação para a acção – em Esta Noite Improvisa-se, um espectador passivo não é um espectador. Porque «ninguém pode dirigir a vida que nasce, até o autor tem que obedecer». E porque há uma vida, a de Mommina, que chega ao seu fim, enquanto conta o que é o teatro às duas filhas.
Quando há tanta gente em palco – e, senhores, estamos a falar em três dezenas de personagens que não poucas vezes coabitam o drama – só uma encenação inteligente pode evitar a confusão. Mas para isso lá estava Hinkfuss (António Simão), com a sua batuta invisível, sempre a conduzir (a fingir que?) os movimentos da multidão. Preparado está ele para hecatombes de difícil resolução. Numa das suas primeiras falas (o autor, o actor, o encenador, o actor que faz de encenador?) segreda ao público ainda inocente: «[Pirandelo] já enviou a um colega meu seis personagens à procura de autor». Só para verem como as coisas do teatro são…
Teatro Nacional D. Maria II | Artistas Unidos
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