«Andar de um lado para o outro a dar a conhecer o nosso trabalho é Rock'n'Roll»
A estrada é a sua principal influência e cantam em inglês porque os pais do rock ensinaram-nos a cantar assim. Após o sucesso de John Captain o rock condimentado a blues e country dos Born A Lion está de volta com o «mais maduro» Bluezebu.
Andaram em tournée pelo Brasil e o single homónimo do primeiro disco conquistou um airplay assinável no mastigado mundo do
éter no nosso país. Com vista para o Tejo – que nos séculos XV e XVI lançou os
portugueses para os gloriosos Descobrimentos – o guitarrista Bruno Melquiadez
contou ao RASCUNHO até onde é que Bluezebu pode levar o trio da Marinha Grande.
Para os Born A Lion o
que é viver num Rock’n’roll tone?
Esse é o tema principal não só do single como de todo o
disco. Retrata tudo o que passamos nos últimos anos, ao andarmos pela estrada
de lado para o outro a fazer aquilo de que mais gostamos e ao mesmo tempo
sentirmos a típica nostalgia por não estarmos em casa. Conhecer
novos lugares, novas pessoas, vivermos novas experiências e ultrapassar todos
os contratempos e surpresas que aparecem na estrada acaba por ser viver num rock’n’roll tone.
Acaba por ser o
espírito de andar por estradas como a Road 66 a mostrar o vosso trabalho em vez de o
fazerem via Internet, a via mais comum nos nossos tempos?
Andar a tocar quase sem casa, de um lado para o outro e dar
a conhecer o teu trabalho ao máximo de pessoas possível é Rock’n’Roll. Tanto
podes tocar para 10 pessoas como para 100, não sabes para onde vais nem quem te
vai receber. Acaba por ser como a tour que fizemos em 2007 pelo Brasil. Andamos duas semanas de um lado para o outro,
tocávamos todos os dias e isso marcou-nos e enriqueceu-nos muito, não só como
banda mas como pessoas. São experiências que guardas para ti e te enriquecem. Mas,
apesar de tudo isto, hoje em dia a Internet é uma ferramenta indispensável.
Qual é a principal
diferença entre o Bluezebu e o John Captain?
Bem, têm tantos pontos em comum
como dissidentes. A principal diferença acaba por ser o amadurecimento
que atingimos com este novo trabalho, vindo em parte dos anos de estrada que
tivemos com o John Captain, tanto em Portugal como no Brasil. Estas novas
vivências com as pessoas que conhecemos com as coisas novas que fomos ouvindo
ditaram uma evolução que dita as diferenças que não foram premeditadas.
Provavelmente o que virá a seguir também será uma evolução natural.
Já haviam contado com
a colaboração do Legendary Tiger Man e agora optaram pelo Afonso e pelo Filipe
dos Sean Riley & The Slowriders. Porque é que escolheram estes convidados?
Pensam que depois de John Captain não precisavam de alguém com a visibilidade
do Paulo Furtado?
Nós não paramos para pensar se estes convidados seriam bons
ou não. Gravámos este novo trabalho no estúdio dos Allstar Project, banda do
Ramón que também participou no Bluezebu. Um ambiente muito familiar, iam sempre
entrando e saindo amigos para beber um copo e tocar um pouco. Fomos intensificando
contacto com os Sean Riley & The Slowriders tanto em estrada como doutras
formas e ficamos grandes amigos. Temos partilhado palco e a vida do rock. O
Afonso ia ter connosco quase todos os dias e tocava uma nova malha que nos
parecia bem. Tudo muito espontâneo. Penso que aí está a magia destas
participações.
O convite ao Paulo Furtado não tinha sido feito a pensar na
visibilidade que poderia dar ao John Captain. É claro que é sempre uma
mais-valia mas não foi propositado. Nós somos amigos dele e admiramos muito a
música que faz. Foi um prazer imenso ter tido o Paulo Furtado como convidado, mas
também foi uma coisa muito natural. Surgiu o convite, ouviu as músicas e fez as
malhas que achou bem para aquelas músicas.
A crítica feita ao
John Captain foi unânime em reconhecer que os Born A Lion são uma banda que não
maltrata os blues e o country, estilos tipicamente
norte-americanos. Apreciam mais o legado norte-americano ou o inglês?
Quando se fala em blues e country é claro que os Estados
Unidos são uma grande influência para nós. Por outro lado muitas das influências
do nosso trabalho vêm de bandas da escola inglesa como os Led Zeppelin, os Deep
Purple ou os Black Sabbath. Da aliança dessas duas grandes massas é que se faz
o som dos Born A Lion.
No entanto ainda não
foram convidados para representar Portugal no South by Southwest, que costuma
receber calorosamente bandas do género. Sentem que têm sido injustiçados,
talvez ainda não tenham reparado suficientemente em vós. Qual é problema?
Sinceramente, nunca tinha pensado nisso até porque o South
by Southwest não é um evento que me fascine por aí além. Oportunidades como
essa vão aparecendo, não temos pressa. Não nos surgiu esse convite mas surgiu o
do Brasil, por exemplo. São coisas diferentes, é claro que gostaríamos imenso e
faz parte dos nossos planos uma tour nos Estados Unidos. Não desdenhamos Portugal
porque é o nosso povo e a nossa casa, mas os planos de tocar lá fora estão
sempre presentes.
Mas o que têm feito
para repararem em vocês no estrangeiro?
Temos contactos tanto nos Estados Unidos como cá na Europa e,
mais recentemente, até no Japão. O álbum saiu há pouco tempo, ainda está tudo
muito fresco. Vamos tentar trabalhar com esses contactos para ver o que pode
surgir. É melhor ir com calma no que toca a esse aspecto. Não temos pressa no
que toca a termos uma surpresa agradável.
E quanto a bandas
portuguesas: não há nenhum que vocês acompanhem com especial entusiasmo?
Desde que o John Captain saiu, ficamos a conhecer mais projectos
portugueses e com mais contactos com a malta que faz coisas cá dentro. Nessa
altura houve um grande conjunto de bandas que também deram nas vistas como os The
Poppers, dos quais também somos grandes amigos, dos The Vicious Five, dos
próprios All Star Project, os Sean Riley, o Paulo Furtado, os Bunnyranch, toda
essa malta partilha no fundo o mesmo amor pela música.
Quase tudo bandas de
Coimbra, terra de onde vêm os artistas que têm colaborado convosco. É
propositado?
Também é uma coisa que não é pensada. Parte da nossa roda de
amigos. A partir do momento em que andamos na estrada e conhecemos malta que tem
os mesmos gostos e faz as mesmas coisas que nós, é bom poderes partilhar
experiências e conhecimentos com essas pessoas. Não é com intuito de nos
associarmos às bandas de Coimbra. É uma coisa natural, somos amigos.
As bandas que cantam
em português têm estado muito em
voga. A opção de cantar em inglês é para manter?
Sempre falei português porque os meus pais biológicos me
ensinaram a falar português. Os pais do rock ensinaram-me a falar inglês. É uma
opção muito natural cantar em
inglês. Não é melhor nem pior.
Quanto a datas ao
nível nacional. Após o lançamento do Bluezebu não acham que já deveriam ter
mais concertos marcados? Como é que as pessoas têm reagido?
Até agora nos concertos que temos dado a reacção tem sido muito boa,
excelente até. Os concertos vão surgindo. Ao início não consegues começar logo
com a força que querias, até pelo próprio circuito em que estamos inseridos,
que não é tão directo. Mas as coisas vão andando devagar, vão-se fazendo a seu
tempo. Vamos tentar dar o maior número de concertos possível, levar ao maior
número de pessoas possível o que fazemos e daí tentar extrair boas experiências.
A seu tempo e devido ao nosso trabalho as coisas vão acontecendo. O que nós
queremos mesmo é continuar a trabalhar, continuar a fazer o que gostamos e a
acreditar nisso.