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 25.07.2009 | Literatura | Entrevista

«É preciso evitar o atavismo»

 

Este é um tempo frutuoso para Cristina Carvalho: tem O gato de Uppsala a esgotar segunda edição – o que motivou a conversa com o RASCUNHO –, um livro no prelo e outro a caminho. É uma entusiasta da vida e da Natureza. E aí estará mais um volume.

 

O gato de Uppsala abre com Vergílio Ferreira: «Da minha língua vê-se a mar.» Com uma escolha destas arrisca-se a que nem entremos no romance. E no entanto a segunda edição vai esgotando.

É o lema da Sextante Editora, que figura em todos os livros que publica de autores portugueses. Efectivamente, tanto quanto sei, a segunda edição tem registado uma boa procura.

 

O que a faz escrever, em 2008, 2009, sobre um desastroso empreendimento, o maior de todos, na Suécia do séc. XVII?

É um facto histórico inspirador que permite um olhar sobre comportamentos humanos individuais e colectivos. Procurei analisar atitudes de humildade e de arrogância perante as obras do homem. A construção (falhada) do mais belo e poderoso navio de guerra da Europa desse tempo, as expectativas colectivas que foram geradas e a frustração do desastre fornecem muitos motivos de reflexão sempre actuais.

 

«Os culpados serão castigados…» Esta fala do rei, após o afundamento do maior navio do seu tempo na viagem inaugural, o Vasa, é de algum modo profético, ou é a mais pura ira?

É um apelo à responsabilização e uma manifestação inequívoca contra a impunidade. É certamente uma afirmação do poder real interpretando, porventura, o sentimento do povo.

 

Utiliza o Vasa como mero pretexto para a estória, ou o rebuçado não está nem numa coisa nem noutra?

Tanto o navio Vasa como o Gato de Uppsala são pretextos para a construção desta estória. Quis escrever sobre a vida, nascimento, percurso e morte. Tudo natural...

 

O gato de Uppsala pretende ser uma palavra de cautela para aventureiros, ou para arrivistas?

Não é nenhum conselho, nenhuma palavra de cautela para ninguém. Toda a gente nasce e vive e morre e caminha e procura e encontra e aprende e ensina e se alegra e se entristece e se espanta e desanima ou entusiasma. Tudo isto é natural. Foi tudo o que aconteceu na viagem da vida de Elvis e de Agnetta. É assim que deveria ser com toda a gente, no entanto, há oportunidades que nunca serão aproveitadas, há ensinamentos que escapam. No fim, vamos todos dar ao mesmo sítio...

 

Elvis e Agnetta, o casal que desce do Norte da Suécia, de Uppsala, até Estocolmo, a pé, para ver o grande navio, estão em construção. A jornada molda-os?

É verdade. A jornada traz-lhes muitos ensinamentos, desde a observação da noite, dos astros, do imponderável espaço celeste, dos animais que encontram, da vida muito para além das suas próprias vidas que também é preciso conhecer, a vida animal, a vida vegetal, a tragédia do fogo na floresta que é um acontecimento devastador e inesquecível nas suas vidas, a fantasia das sereias, o deslumbramento das luzes ao longe da grande cidade e o mar, sempre o mar! Enfim, um mundo de vivências e de descobertas individuais e em grupo. E sobretudo o amor!

 

Às vezes, ficámos tolhidos, com a sensação de que existe um lugar certo, que é o nosso e o de mais ninguém, de onde não deveremos sair. O que é castrador.

Acho, no meu simples entendimento, que nada é castrador e que tudo é castrador, dependendo do sinal que queremos dar. Pode ser castrador passar a vida na experimentação, na viagem, dizer adeus ao ovo cheios de ironia... Pode ser castrador nunca sair do ovo. Ou não... É preciso evitar o atavismo. «Os sábios não são curiosos» – Anatole France.

 

A ambição e o entusiasmo não colhem, à primeira vista, nesta estória.

Aí é que não percebo! Então o rapaz, o Elvis, que teve a maior ambição da sua vida que foi sair de Kiruna, sozinho!, empreender uma viagem totalmente no desconhecido, sozinho!, enfrentar o pai da namorada – o que não foi nada fácil –, sozinho!, convencer a namorada a viajar a pé desde Uppsala até Estocolmo, sozinhos!, enfrentar perigos desconhecidos até então sempre com o pensamento na grande descoberta e na grande aventura que seria a de embarcar no Vasa, sozinhos!, o entusiasmo que os levou a prosseguir a caminhada da vida deles, o pensamento sempre presente que os alimentou e os guiou até à cidade grande, até ao mar, até ao Vasa!... E com o Gato aos ombros. Por outro lado, é evidente, também, que a ambição e o entusiasmo podem não colher. Por isso houve a tragédia...

 

Sim, acaba quase por ser um sonho, do qual finalmente acordam e têm de regressar à realidade, aquela específica que é a deles e que não contempla nem um enorme navio, nem uma capital.

Toda a nossa vida é um sonho. Perceber onde é que começa e acaba a realidade e o que é a realidade, não é possível. Pode ser um pesadelo, pode não ser. Na vida de Elvis e de Agnetta é esse sonho de descobrir outras realidades – porque eles imaginam que existe outra realidade – que os faz avançar. Não conseguem é imaginar, abarcar, toda a extensão dessa realidade que continua muito para além dos telhados de colmo, das casinhas de bosta de rena e do céu brilhante de Uppsala.

 

O que é isso de um livro «para todas as idades», como se anuncia O gato de Uppsala [na imagem; ilustração de Danuta Wojciechowska]? A transversalidade está na forma ou no miolo?

Quando escrevi esta estória não me apercebi que, de facto, podia ser lida por qualquer pessoa de qualquer idade. Só mesmo no final é que cheguei a essa conclusão. Não foi essa a minha intenção mas resultou assim e ainda bem. Senti-me feliz por isso.

 

Como se coloca esta peça no quadro geral da sua obra?

Foi uma experiência narrativa diferente de tudo o que tinha escrito até então. O que não quer dizer que continue nesta linha. Pode acontecer outra vez e até talvez aconteça... Refiro-me a uma outra coisa que tenho na cabeça.

 

Que coisa é essa – pode contar?

É uma estória que me apareceu, que me tem aparecido ultimamente, que me anda a rondar... Por estar ainda em fase de germinação, por ser ainda apenas um pensamento, uma ideia que todos os dias cresce um bocadinho, não devo, naturalmente, adiantar nada. No entanto, posso dizer que se trata de algo com uma forte ligação à nossa grande mãe, a Natureza.

 

Que relação mantém com o destino – ou, melhor dito, com as fatalidades humanas?

Não sou fatalista! As fatalidades são fatalidades. Esta é uma questão muito difícil de responder porque cada um de nós tem a sua própria verdade. Não há verdades nem certezas e muito menos sobre o destino. Interrogo-me constantemente, realmente, sobre qual será a verdadeira natureza da vida, mas isto é uma questão, para mim, sem solução. Gostava de poder dar uma resposta mais consistente, mas o assunto em si é opaco. Qual é a verdade do amor? Qual é a verdade da vida? O que é o destino? Inconcebível!... Não há respostas. Se alguém, em consciência, tiver uma resposta, então sim, será feliz.

 

Em 20 anos publicou apenas cinco títulos, incluindo este. Tendo por base esse cenário, é surpreendente que, em menos de um ano, entre Fevereiro e o início de 2010, existam três livros seus nas livrarias.

Em Novembro próximo sairá um outro romance, é verdade. Tenho outro romance pronto que espero que venha a ser publicado em 2010. Surpreendente? Sim, realmente, é! Para quem tem quase sessenta anos e escreveu desde que aprendeu a escrever e só tem cinco livros publicados, é! A vida não foi fácil. O que se passa agora é que estou dedicada inteiramente às minhas estórias. Com sorte, terei mais vinte anos de vida útil – com sorte! Não tenho tempo a perder!

 

É filha de Rómulo de Carvalho (António Gedeão). É um apontamento inevitável da sua biografia, que abre ou que fecha portas?

Não sei. Nunca percebi. Se calhar, abre-as devagarinho, para espreitar... Se calhar fecha-as com força, inexoravelmente, como já aconteceu. Depende. Mas eu sou eu.

 

Para trás fica a, apesar de intermitente, longa ligação à Relógio d’Água. Como O gato de Uppsala está a correr tão bem, podemos assumir que se mantém na Sextante?

Por mim, claro! Estou muito bem e muito feliz na Sextante. Estou em completa sintonia com a sua linha e critério de publicação e de actuação e profissionalismo.

 

O que nos pode revelar do romance que já tem terminado? Estará pronto para a rentrée?

O que está terminado mesmo espero que venha a ser publicado em 2010. O que estou a terminar é para aparecer em Novembro deste ano. Falta pouco.

 

O que espera tanto de um como de outro? Que tipo de objectivos traça?

Espero que os leitores, as pessoas que lêem os livros que os escritores escrevem para eles, gostem. Isso é o ideal. Se assim não fosse escrevíamos para nós próprios, de vez em quando olhávamos para os nossos escritos, tornávamos a guardar, tornávamos a olhar, tornávamos a guardar, e assim por diante. Nós, os escritores, escrevemos para que outras pessoas leiam. Para que possam conhecer e aprender. Para que possam sonhar. Assim como os pintores pintam para que as pessoas possam sonhar, assim como os músicos fazem música para que as pessoas possam sonhar e ouvir, assim como um jardim se faz para que as pessoas o possam gozar e nele sonhar. Dos meus livros, passados e futuros, esses livros que vou escrevendo com tanto entusiasmo e, posso dizer, com alegria (porque gosto muito de escrever), espero que toda a gente os possa apreciar e sonhar com eles.

 

 

Blogue para O gato de Uppsala

Hugo Torres
 
etiquetaEtiquetas: Cristina Carvalho, Sextante, Danuta Wojciechowska, António Gedeão,  
 
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