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 02.08.2009 | Música |

«Os músicos precisam de ter gente que os compreenda e projecte»

 

A algumas horas do primeiro concerto do Jazz em Agosto, que decorre entre 1 e 9, o RASCUNHO sentou-se no anfiteatro ao ar livre da Fundação Gulbenkian com o director artístico Rui Neves e foi perceber como se fazem 25 anos de programação superlativa.

 

Peter Evans e Bill Dixon. Para um programador artístico, qual é a sensação de apresentar dois nomes tão importantes do jazz contemporâneo na abertura e no fecho do festival?

Há sempre a preocupação de eleger, quer para o fecho quer para o início do festival, projectos significativos e que sejam verdadeiramente importantes na leitura que possamos fazer do que é a música jazz hoje. Nesta edição, escolhemos dois nomes que fazem jus ao conceito do Jazz em Agosto deste ano que é «ícones inovadores». O primeiro concerto apresenta precisamente o novo projecto do Peter Evans, em que este trombonista explora a sua faceta electroacústica. O concerto de encerramento será o concerto do Bill Dixon que virá acompanhado por uma orquestra de Chicago, este é indiscutivelmente um ícone mas é também um inovador. Será um encerramento condigno do festival como aliás tem sido sempre ao longo dos anos.

Que outros momentos gostaria de destacar?

O concerto da Dj Mutamassik com o guitarrista Morgan Craft que juntos vão explorar vias mais estratosfericas de djing experimental. A Nublu Orchestra, no domingo (dia 2), que é conduzida por Lawrence Butch Morris, um músico norte-americano que criou um estilo e um léxico próprios. O concerto no anfiteatro ao ar livre de Brass Ecstasy com o trompetista Dave Douglas, um dos músicos mais importantes do jazz da actualidade e que actua pela primeira vez em Portugal com este projecto-homenagem a Lester Bowie. O concerto dos Buffalo Collision, na sexta-feira (dia 7), que são um súper grupo de músicos superlativos. Não quer dizer que vá haver uma colisão de búfalos mas talvez um entendimento como pouca gente está à espera. A trompet soul que decorrerá nesse mesmo dia levada a cabo por Peter Evans, um dos mais reconhecidos jovens da actualidade jazzística que também actuará no festival com a sua banda, quisemos apresentá-lo em duas dimensões muito significativas.

Porquê a escolha do filme Imagine the Sound para ser exibido neste festival?

Porque traz para a ribalta declarações importantes de ordem social e estética de grandes músicos inovadores do jazz como as do Bill Dixon que actua no último dia do festival.

 O Jazz em Agosto apresenta a cada ano uma programação ao nível dos principais festivais mundiais de jazz. Qual é o grande esforço da organização a cada edição do festival?

O esforço da organização da Fundação Calouste Gulbenkian é fazê-lo sempre com uma equipa dotada e trabalhar cada vez melhor.

Em 2009 o Jazz em Agosto cumpre um ciclo de 25 anos. Qual é o sentimento? Vai haver algum festejo em especial?

Sentimos que a qualidade do trabalho apresentado é já por si é um festejo. Além disso, neste momento temos três concertos editados e tencionamos gravar o concerto do Peter Evans para sair para o ano. Estas acções do Jazz em Agosto também significam que queremos preservar alguma memória dele.

As coisas têm mudado a nível de público? Quem é o público do Jazz em Agosto?

Nos últimos anos, o Jazz em Agosto tem rondado os seis mil espectadores. O que interessa caracterizar é a estabilidade das audiências deste festival, um aumento das audiências internacionais e a presença, cada vez mais, de críticos internacionais. Lembro-me de uma vez ler no blogue de um crítico: «estava para recolher os meus bilhetes na bilheteira e só ouvia falar inglês, francês e italiano à minha volta». Isso é um bom exemplo do quanto o Jazz em Agosto tem uma clientela estável internacional. A nossa campanha publicitária passa também pelas maiores publicações de jazz americanas, francesas, alemãs, inglesas e isso cria um interesse redobrado de pessoas de fora. Somos ainda visitados pelos turistas que estão em Lisboa no mês de Agosto e que querem ver jazz. Os turistas não vêm só para ir à praia e aos museus vêm também para ouvir música. Isso é muito positivo e funciona bem.

Qual é a sua opinião em relação aos festivais de jazz que cada vez mais acontecem em vários pontos do país?

A nível nacional, neste momento, não há dúvida que há uma criação do gosto. Notam-se mais acções, nunca tivemos tantos festivais de jazz por todo o país e eu acho isso muitíssimo bom pois significa que há mais gente que quer ouvir e alimentar toda uma dinâmica. É importante que os músicos, que vivem da música, tenham público e o nosso papel de quem organiza concertos, além de ser um modo de vida, é também uma parceria com os próprios criadores da música. Os músicos precisam de ter gente que os compreenda e projecte.

Qual vai ser o esforço da organização do Jazz em Agosto nas próximas edições do festival?

Manter o nível. Isto é como andar a correr na Fórmula Um, tem que se andar sempre a manter o carro em boas condições para se ganharem os melhores prémios.

E é fácil?

Nada é fácil, direi que é mais fácil quando se gosta muito de música e quando se está muito dentro dos assuntos. Certamente que um cientista de astronomia é uma pessoa que tem um trabalho muito difícil pela frente, só que ele gosta tanto daquilo que faz que vai progredindo no seu trabalho, a nossa maneira de ver as coisas aqui também é assim.

 

Sítio oficial

Foto: Vítor Rua

Inês Caridade
 
 
 
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