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 17.11.2009 | Música | Entrevista

unoeskimo e o rock anti-conceito

 

Depois dos Sizo, é a vez dos unoeskimo provarem que o Porto e a estrutura tradicional ainda têm muito rock para dar. Acabam de lançar disco homónimo e desafiam-nos a «encontrar o ponto fulcral da história».

 

Há pouco mais de três anos, Carl Minneman teve a ideia de, sem pressas, criar uma banda rock. No meio de trocas entre o Porto e Barcelona, os unoeskimo ganharam forma e criaram um disco homónimo. Numa tarde sem sinais do consumismo natalício «em que aparecem mais coisas», o vocalista de baptismo anglo-saxónico e o baixista Kiko Brandão, sentaram-se, em Lisboa, com o RASCUNHO, para uma conversa sobre a sua música «desconceitualizada» e sobre a onda que se gera no Porto que os vê crescer.

 

Os unoeskimo nasceram em 2006 mas apenas agora é que contamos com material vosso. Como é que foi feito o vosso trajecto até este primeiro disco?

Kiko – Comecei a tocar baixo, toquei durante algum tempo e fui à minha vida. O Carl que sempre fez a carreira dele como baixista e contrabaixista arriscou começar a compor qualquer coisa para ver o que saía. O projecto começou a ganhar forma com o aparecimento de um baterista (David), de um baixista (João Pequeno), de um teclista (João Serôdio) e, mais tarde, de um guitarrista (Tiago). Ensaiaram durante uns tempos, começaram a desenvolver um projecto, mas tanto o João como o Tiago foram de Erasmus para Barcelona. Por volta da mesma altura, eu voltava de lá e o Carl encontrou-me no Festival Paredes de Coura. Convidou-me para fazer parte da banda e acabei por lhe sugerir um guitarrista (Tiago Mota). Ensaiámos durante seis meses e surgiu um convite da Universidade Católica do Porto para gravarmos uma maquete. Depois disso, no início de 2007, acabámos por dar lá o nosso primeiro concerto, no Festival Black&White.

 

E o nome de onde e como é que surgiu? O baptismo demorou muito tempo?

Carl – Tal como os filhos, as bandas também precisam de nomes, não é? Não sou de pensar muito nisso. Há gente que, às vezes, já tem o nome da banda e nem sequer tem banda. Connosco foi mesmo a obrigatoriedade de, quando começámos a tocar ao vivo, termos um nome. Não podíamos ser a banda Sem Nome até porque já existe (risos). O nome surgiu numa noite de copos com amigos e com uma lista interminável de nomes à frente. unoeskimo acabou por surgir. Hoje em dia, acho que já não poderíamos ter outro nome.

 

K – Essa atitude em relação ao nome, no sentido em que não significava absolutamente nada na altura em que o escolhemos, é muito a atitude da banda porque assumimos ser desconceitualizados. Não estamos a procurar nenhum conceito para nos encaixarmos nele a nível de imagem, de nome, nem da sonoridade. Vamos fazendo à medida que nos vai acontecendo. O que nos parece bom guardamos, o que nos parece mal, deitamos fora.

 

E se algum de vocês ouvir algo que considera interessante e decidir levá-lo para estúdio. Como é recebida essa sugestão?

C – Para nós, isso não pode acontecer. É louvável que, quando as coisas começam a soar, algum de nós traga ideias. Mas tentamos não seguir ideias provenientes de discos que já foram feitos por outras bandas. É muito fácil fazer-se coisas muito parecidas. A música não tem assim tantos acordes, há sempre parecenças. Podes sempre ligar uma banda com outra. Agora, até estão na moda os vídeos no YouTube que procuram semelhanças entre temas, para tentar encontrar copiões. Sei que há quem componha, pegue na guitarra e começa a levar a música nessa direcção. Connosco funciona mais de forma espontânea. Poderá sair influenciado ou não, mas é o que sai. Não procuramos ir buscar influências directamente a outro sítio.

 

Mas a estrutura dos unoeskimo, apesar de contar com um teclista, não difere muito da tradicional [vocalista, baixista, guitarrista e baterista]. Não acham que isso vai acabar por fazer com quem surjam comparações?

K – É claro que vão surgir sempre comparações. Se tivéssemos um contrabaixo ou outros instrumentos surgiriam outras. Somos todos músicos que tentamos viver exclusivamente da Música. Também tocamos noutros projectos e tocamos mais do que um instrumento. Quando estamos a compor, o nosso input na banda não é tanto o baixista, o teclista ou o baterista, mas o músico e o que pode dar a esta banda. Se surgir uma música em que tenho que tocar guitarra acústica, toco.

 

C – Estamos um pouco para além da banda rock com a formação clássica. O disco não só tem músicas dentro do típico registo rock, como temas mais pop.

 

A escolha de nome do disco, homónimo ao da banda, é um esforço para manter esse nome bem presente na cabeça dos ouvintes?

K – A escolha de nome do disco pesou em vários aspectos. Tínhamos um disco feito e achámos que baptizá-lo com o nome da banda seria uma boa opção. Mais uma vez, não diz nada em concreto. Chama-se unoeskimo e aqui está ele.

 

Também pode dar a entender que não há um guião a ser seguido pela banda…

K – A nossa esperança é que isso desapareça quando se ouve a música. Queremos que, aí, encontrem o ponto fulcral da história toda.

 

O videoclip do vosso single, o Disgrace, levou-me para uma vida desregrada e sofrida…

K – Acaba mais por ser o anti-conceito. O videoclip foi elaborado por nós e pela Dawn Pictures em conversas. Nunca dissemos «vamos fazer isto para representar uma vida desregrada ou sofrimento na cabeça do gajo». Íamos ouvindo a música e escolhíamos imagens. As coisas acabam por fluir automaticamente, ficam com o nosso cunho pessoal, mas não seguem um conceito.

 

 

Então posso concluir que este unoeskimo é mesmo o disco que queriam fazer?

K – Começámos a gravar o disco em Agosto e a primeira masterização foi em Maio. Estivemos imenso tempo no estúdio. Tivemos um óptimo produtor e tivemos a nossa rede de segurança que nos permitia arriscar à-vontade, sem que ninguém nos traçasse um caminho a seguir. Tivemos muito tempo para deitar coisas fora. Depois desse trabalho, ouvimos o disco todo e concluímos que é mesmo o disco que queríamos fazer. Não tínhamos uma ideia definida de que como iria ser o disco quando entrámos para o estúdio.

 

C – Se calhar daqui a 10 anos ouvimos este disco e pensamos que se calhar devíamos ter começado de outra maneira. Fomos limando umas arestas até chegarmos ao resultado final que, neste momento, nos deixa bastante satisfeitos. Já que tivemos tempo para fazermos o disco que queríamos, responsabilizamo-nos pelo que as pessoas possam pensar. Queríamos lançar a tempo do Verão mas, depois de vermos que não iríamos conseguir, pensámos que não nos deveríamos precipitar. É bom lançarmos antes do Natal, que é quando aparecem mais coisas. Se bem que já estejam a aparecer mais do que desejaríamos. No fundo estás sempre a competir contra coisas gigantescas, não só nacionais como internacionais, como o próximo álbum da Mariah Carey ou algo do género.

 

Têm pressa para conseguirem um determinado feedback? Até agora só têm dado concertos no Grande Porto. Esperam abrir horizontes geográficos?

C – Não há pressa, estamos curiosos. A pressa é sempre nossa inimiga. Vamos fazer a nossa promoção do disco pelas Fnac e vamos tentar chegar ao maior número de pessoas e palcos possíveis. Agora que o disco está pronto, não o vamos deixar morrer. Estamos curiosos mas com calma para vermos o que poderá acontecer. Esperamos alargar essas fronteiras e começar a dar concertos também cá por baixo.

 

Os You Should Go Ahead e os Vicious Five chegaram ao fim. No Porto, para além de vocês, estão a aparecer os Sizo que, por exemplo, este ano encerraram o Festival Paredes de Coura. Consideram que a nova vaga rock vem da vossa cidade que até tinha sofrido uma estagnação ao nível deste tipo de projectos?

K – É óptimo o aparecimento de bandas no Porto como os Sizo, que até são nossos amigos. É curioso que mesmo as bandas que estagnaram como os Zen, ou mesmo os próprios Blind Zero, também estão a voltar ao activo e a fazer parte da nova vaga. Acredito, realmente, que está a sair muita música do Porto, outra vez.

 

Isso poderá ter a ver com o circuito urbano nocturno que se gerou na baixa portuense?

C – Acho que não, acho que foi antes. Foi antes deste movimento das Galerias [de Paris] e da baixa revitalizada à noite, com novos bares a abrir todos os dias. No fim ao cabo, ali não há assim tantos bares onde se possa tocar. Tens maioritariamente sítios onde podes ir tocar jazz. O que começa a aparecer são noites temáticas, com concertos na rua que beneficiam as bandas emergentes.

 

Comparando com Lisboa, que não tem denotado grande evolução nesse sentido e tem salas com limite de decibéis, não acham que o Porto oferece melhores condições ao aparecimento de bandas do vosso género?

K – Não sei se oferecerá melhores condições. Não estou bem consciente do que é começar uma banda em Lisboa. A impressão que tenho é que, a partir do momento em que se está em Lisboa, vais a sítios que permitem conhecer pessoas com muita mais influência do que aquelas que conhecemos no Porto. O Porto é capaz de ser mais propício a bandas de garagem porque tens mais sítios para tocar, mas para lançar um projecto Lisboa continua a filtrar tudo. Prova disso é termos vindo cá hoje.

 

C – Toda a gente sabe que tem que se vir a Lisboa, senão vamos acabar por tocar sempre nos mesmos sítios como se estivéssemos num aquário.

Luís Carlos Soares
 
etiquetaEtiquetas: unoeskimo, Dawn Pictures,  
 
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