Depois dos Sizo, é a vez dos unoeskimo provarem que o Porto e a estrutura tradicional ainda têm muito rock para dar. Acabam de lançar disco homónimo e desafiam-nos a «encontrar o ponto fulcral da história».
Há pouco mais de três anos, Carl
Minneman teve a ideia de, sem pressas, criar uma banda rock. No meio de trocas entre o Porto e Barcelona, os unoeskimo ganharam forma e criaram um disco homónimo. Numa tarde sem sinais do consumismo
natalício – «em que aparecem mais coisas» –, o vocalista de baptismo anglo-saxónico
e o baixista Kiko Brandão, sentaram-se, em Lisboa, com o RASCUNHO, para uma
conversa sobre a sua música «desconceitualizada» e sobre a onda que se gera no
Porto que os vê crescer.
Os unoeskimo nasceram em 2006 mas apenas agora é que
contamos com material vosso. Como é que foi feito o vosso trajecto até este
primeiro disco?
Kiko – Comecei a tocar baixo, toquei
durante algum tempo e fui à minha vida. O Carl que sempre fez a carreira dele
como baixista e contrabaixista arriscou começar a compor qualquer coisa para
ver o que saía. O projecto começou a ganhar forma com o aparecimento de um
baterista (David), de um baixista (João Pequeno), de um teclista (João Serôdio)
e, mais tarde, de um guitarrista (Tiago). Ensaiaram durante uns tempos, começaram
a desenvolver um projecto, mas tanto o João como o Tiago foram de Erasmus para
Barcelona. Por volta da mesma altura, eu voltava de lá e o Carl encontrou-me no
Festival Paredes de Coura. Convidou-me para fazer parte da banda e acabei por
lhe sugerir um guitarrista (Tiago Mota). Ensaiámos durante seis meses e surgiu um
convite da Universidade Católica do Porto para gravarmos uma maquete. Depois
disso, no início de 2007, acabámos por dar lá o nosso primeiro concerto, no Festival
Black&White.
E o nome de onde e como é que surgiu? O baptismo demorou
muito tempo?
Carl – Tal como os filhos, as
bandas também precisam de nomes, não é? Não sou de pensar muito nisso. Há
gente que, às vezes, já tem o nome da banda e nem sequer tem banda.
Connosco foi mesmo a obrigatoriedade de, quando começámos a tocar ao vivo,
termos um nome. Não podíamos ser a banda Sem Nome até porque já existe (risos).
O nome surgiu numa noite de copos com amigos e com uma lista interminável de
nomes à frente. unoeskimo acabou por surgir. Hoje em dia, acho que já não poderíamos
ter outro nome.
K – Essa atitude em relação ao
nome, no sentido em que não significava absolutamente nada na altura em
que o escolhemos, é muito a atitude da banda porque assumimos ser
desconceitualizados. Não estamos a procurar nenhum conceito para nos
encaixarmos nele a nível de imagem, de nome, nem da sonoridade. Vamos fazendo à
medida que nos vai acontecendo. O que nos parece bom guardamos, o que nos
parece mal, deitamos fora.
E se algum de vocês ouvir algo que considera interessante
e decidir levá-lo para estúdio. Como é recebida essa sugestão?
C – Para nós, isso não pode
acontecer. É louvável que, quando as coisas começam a soar, algum de nós
traga ideias. Mas tentamos não seguir ideias provenientes de discos que já
foram feitos por outras bandas. É muito fácil fazer-se coisas muito parecidas.
A música não tem assim tantos acordes, há sempre parecenças. Podes sempre ligar
uma banda com outra. Agora, até estão na moda os vídeos no YouTube que procuram
semelhanças entre temas, para tentar encontrar copiões. Sei que há quem
componha, pegue na guitarra e começa a levar a música nessa direcção. Connosco
funciona mais de forma espontânea. Poderá sair influenciado ou não, mas é o que
sai. Não procuramos ir buscar influências directamente a outro sítio.
Mas a estrutura dos unoeskimo, apesar de contar com um
teclista, não difere muito da tradicional [vocalista, baixista, guitarrista e
baterista]. Não acham que isso vai acabar por fazer com quem surjam
comparações?
K – É claro que vão surgir sempre
comparações. Se tivéssemos um contrabaixo ou outros instrumentos surgiriam
outras. Somos todos músicos que tentamos viver exclusivamente da Música.
Também tocamos noutros projectos e tocamos mais do que um instrumento. Quando
estamos a compor, o nosso input na
banda não é tanto o baixista, o teclista ou o baterista, mas o músico e o que
pode dar a esta banda. Se surgir uma música em que tenho que tocar guitarra
acústica, toco.
C – Estamos um pouco para além da
banda rock com a formação clássica. O disco não só tem músicas dentro do típico
registo rock, como temas mais pop.
A escolha de nome do disco, homónimo ao da banda, é um esforço para manter esse nome bem presente na cabeça dos ouvintes?
K – A escolha de nome do disco
pesou em vários aspectos. Tínhamos um disco feito e achámos que baptizá-lo com
o nome da banda seria uma boa opção. Mais uma vez, não diz nada em concreto. Chama-se
unoeskimo e aqui está ele.
Também pode dar a entender que não há um guião a ser
seguido pela banda…
K – A nossa esperança é que isso
desapareça quando se ouve a música. Queremos que, aí, encontrem o ponto fulcral
da história toda.
O videoclip do vosso single, o Disgrace,
levou-me para uma vida desregrada e sofrida…
K – Acaba mais por ser o
anti-conceito. O videoclip foi
elaborado por nós e pela Dawn Pictures em conversas. Nunca
dissemos «vamos fazer isto para representar uma vida desregrada ou sofrimento
na cabeça do gajo». Íamos ouvindo a música e escolhíamos imagens. As coisas
acabam por fluir automaticamente, ficam com o nosso cunho pessoal, mas não
seguem um conceito.
Então posso concluir que este unoeskimo é mesmo o disco que queriam fazer?
K – Começámos a gravar o disco
em Agosto e a primeira masterização foi em Maio. Estivemos
imenso tempo no estúdio. Tivemos um óptimo produtor e tivemos a nossa rede de
segurança que nos permitia arriscar à-vontade, sem que ninguém nos traçasse um
caminho a seguir. Tivemos muito tempo para deitar coisas fora. Depois desse
trabalho, ouvimos o disco todo e concluímos que é mesmo o disco que
queríamos fazer. Não tínhamos uma ideia definida de que como iria ser o disco
quando entrámos para o estúdio.
C – Se calhar daqui a 10 anos
ouvimos este disco e pensamos que se calhar devíamos ter começado de outra
maneira. Fomos limando umas arestas até chegarmos ao resultado final que, neste
momento, nos deixa bastante satisfeitos. Já que tivemos tempo para fazermos o
disco que queríamos, responsabilizamo-nos pelo que as pessoas possam pensar.
Queríamos lançar a tempo do Verão mas, depois de vermos que não iríamos
conseguir, pensámos que não nos deveríamos precipitar. É bom
lançarmos antes do Natal, que é quando aparecem mais coisas. Se bem que já
estejam a aparecer mais do que desejaríamos. No fundo estás sempre a competir
contra coisas gigantescas, não só nacionais como internacionais, como o próximo
álbum da Mariah Carey ou algo do género.
Têm pressa para conseguirem um determinado feedback? Até agora só têm dado
concertos no Grande Porto. Esperam abrir horizontes geográficos?
C – Não há pressa, estamos
curiosos. A pressa é sempre nossa inimiga. Vamos fazer a nossa promoção do
disco pelas Fnac e vamos tentar chegar ao maior número de pessoas e palcos
possíveis. Agora que o disco está pronto, não o vamos deixar morrer. Estamos curiosos
mas com calma para vermos o que poderá acontecer. Esperamos alargar essas
fronteiras e começar a dar concertos também cá por baixo.
Os You Should Go Ahead e os Vicious Five chegaram ao fim.
No Porto, para além de vocês, estão a aparecer os Sizo que, por exemplo, este
ano encerraram o Festival Paredes de Coura. Consideram que a nova vaga rock vem da vossa cidade que até tinha
sofrido uma estagnação ao nível deste tipo de projectos?
K – É óptimo o aparecimento de
bandas no Porto como os Sizo, que até são nossos amigos. É curioso que mesmo as
bandas que estagnaram como os Zen, ou mesmo os próprios Blind Zero, também estão
a voltar ao activo e a fazer parte da nova vaga. Acredito, realmente, que está
a sair muita música do Porto, outra vez.
Isso poderá ter a ver com o circuito urbano nocturno que se
gerou na baixa portuense?
C – Acho que não, acho que foi
antes. Foi antes deste movimento das Galerias [de Paris] e da baixa
revitalizada à noite, com novos bares a abrir todos os dias. No fim ao cabo,
ali não há assim tantos bares onde se possa tocar. Tens maioritariamente sítios
onde podes ir tocar jazz. O que
começa a aparecer são noites temáticas, com concertos na rua que beneficiam as
bandas emergentes.
Comparando com Lisboa, que não tem denotado grande evolução
nesse sentido e tem salas com limite de decibéis, não acham que o Porto oferece
melhores condições ao aparecimento de bandas do vosso género?
K – Não sei se oferecerá melhores
condições. Não estou bem consciente do que é começar uma banda em Lisboa. A impressão que
tenho é que, a partir do momento em que se está em Lisboa, vais a sítios que
permitem conhecer pessoas com muita mais influência do que aquelas que
conhecemos no Porto. O Porto é capaz de ser mais propício a bandas de garagem
porque tens mais sítios para tocar, mas para lançar um projecto Lisboa
continua a filtrar tudo. Prova disso é termos vindo cá hoje.
C – Toda a gente sabe que tem que
se vir a Lisboa, senão vamos acabar por tocar sempre nos mesmos sítios como se
estivéssemos num aquário.