As Vidas dos Outros, álbum de estreia de Anaquim, passou entre bocas a cantar e está nas parangonas. Em vésperas dos concertos de lançamento em Coimbra e Lisboa, o RASCUNHO foi ouvir o coração ao duende apadrinhado por A Guerra das Estrelas.
Anaquim nasceu em 2007. O psychobilly The Speeding Bullets e
o punk-rock cabaret de The Cynicals não bastaram para satisfazer José Rebola,
que agarrou num conjunto de canções esquecidas, deu-lhes a ironia de um português
culto com maneiras de bairro e a acutilância da infância. Tudo muito antagónico
e real, como os dias, que começou a ser apresentado ao público com o EP Prólogo.
Em 2008,
a equipa do programa «Quilómetro Zero», liderada por
J.P. Simões, chamou o duende cronista à televisão e Rebola foi obrigado a fazer
do projecto banda, com João Santiago, Pedro Ferreira, Filipe Ferreira e Luís
Duarte. Pouco mais de um ano depois, surge As
Vidas dos Outros, com a chancela da Universal. Entre os convidados estão
Ana Bacalhau (Deolinda), Ricardo Reis e mesmo «Os amigos de Gaspar», série
infantil da RTP nos finais dos 1980, que
Sérgio Godinho musicou.
O álbum é apresentado esta quarta-feira, dia 17, no Teatro
Académico Gil Vicente, em Coimbra, e na quinta-feira, dia 18, no Cabaret
Maxime, em Lisboa (ambos marcados para as 21h00). O RASCUNHO quis conhecer
melhor Anaquim antes dos concertos e foi ouvir o seu criador, José Rebola, e
saber que história é essa de trazer as guerras de George Lucas para uma basta
patuscada de canções portuguesas.
Começar a vida
editorial pela Universal é notável. Como aconteceu?
Na verdade, é daquelas notícias boas que surgem um pouco por
acaso, na medida em que não foi premeditado. O projecto começou um pouco ao
sabor do vento, foi crescendo e aprendendo assim, mas depois dos primeiros
passos com a Caminhos sem Atalho foi bom atracarmos no barco da Sons em
Transito, que nos conduziu rumo à Universal. Tudo aconteceu muito naturalmente.
A participação no «Quilómetro
Zero» (RTP2), em 2008, impulsionou
este início de carreira?
Sem dúvida! Aliás, devemos ao «Quilómetro Zero» o facto de
este projecto ver a luz do dia ao vivo, de ser uma banda e não um projecto a
solo. Isto porque só convidei outros músicos quando foi preciso gravar um
ensaio para o programa, uma vez que na altura o projecto estava um pouco na
gaveta! A partir daí nunca mais desgrudámos e a formação manteve-se, tal era a
cumplicidade.
JP Simões disse que
Anaquim é um «bálsamo para a aspereza do quotidiano». Este perfume parece leve,
mas queima.
Queima um pouco, mas o que arde cura! Não queremos de
maneira nenhuma fazer a crítica pela crítica, de maneira destrutiva, e se
apontamos o dedo a certos aspectos da sociedade é porque achamos que há maneira
de os melhorar. Para essa melhoria o primeiro passo é haver um alerta social
lúcido desses problemas. Esse alerta é um dos aspectos que tentamos veicular
com este trabalho.
Os projectos cantados
em português ganharam espaço no mercado. Que resposta esperam do público?
Até agora a resposta e o apoio do público têm sido fenomenais.
Penso que as pessoas se revêem um pouco nos nossos temas e na nossa maneira de
estar. Assim sendo, as letras tornam-se uma conversa e está dado o mote para
que se troquem ideias. O facto de ser em português facilita, mas exige que essas
ideias estejam bem talhadas.
A Deolinda é uma das
responsáveis pelo novo fôlego. Curiosamente, é uma personagem, como Anaquim. O que
levou a convidar a Ana Bacalhau para cantar convosco?
Anaquim procura e fala das peculiaridades dos portugueses e
de ser português, missão que eu penso ser comum à da Deolinda. Embora haja
muitos pontos de divergência, há algo que aglutina estas visões de Portugal e a
perspectiva de trabalhar com alguém da craveira da Ana levou a que se
ultrapassasse a barreira da timidez e que surgisse o convite, que ela
gentilmente aceitou. O tema ficou fantástico e deu ao nosso disco um toque
popular que tornou a palete de expressão musical ainda mais colorida
A canção que leva Ana
Bacalhau ao disco, O meu coração, tem
um balanço que poderia ser de Deolinda. Foi composta de deliberadamente?
O tema só foi composto depois de a Ana aceitar o convite. Assim,
reflecte o carácter festivo da nossa música e também da personalidade da Ana. A
música acaba por ser uma marcha, o que pode não ser tão intuitivo para o
território da Deolinda como o fado malandro (e o rock, que eu sei que eles no
fundo têm uma costela escondida de rockeiros). De qualquer modo, a personagem
da Ana nesta canção não foi criada a pensar em Deolinda mas simplesmente numa
personagem que lhe desse gozo encarnar.
Onde fica a «feira da
ladra dos corações» de que ela que fala?
Fica por todo o lado! Por vezes vestimos uma capa por cima
dos nossos corações, e acabamos por revelá-los de surpresa nos sítios mais
inóspitos e ao simples preço da amizade.
Anaquim é uma
personagem do filme A Guerra das Estrelas.
É difícil casar o imaginário estelar do George Lucas com o bairro de luz e de
becos que se reconhece em As Vidas dos
Outros. Mas há uma história, um propósito neste duende.
Sim. O propósito do nome foi apenas reflectir o carácter
dual que todos temos dentro de nós. Somos todos uma dicotomia entre o bem e o
mal, se quisermos levar as coisas ao extremo, e o Anakin Skywalker é a vítima
máxima dessa dicotomia. Aqui, surge como um aviso que podemos ter controlo
sobre essa dicotomia, e escolher as nossas reacções aos acontecimentos que nos
podem fazer pender para um lado ou para outro. O duende em si não tem passado,
não tem história, e então toda a observação e crónica influencia essas acções e
reacções.
De onde é vertido
este bairro, esta canções, estas ironias?
Dos olhos de cada um. Se soubermos e quisermos olhar em
redor, vemos tudo aquilo que o Anaquim vê neste disco. A observação de costumes
e comportamentos e a consequente reflexão é a melhor maneira de vencermos a «idade
dos porquê» onde o Anaquim ainda está.
Com que discos é que
a tua irmã te ensinou a ser «alguém do Rock»?
Ah ah! Tantos! Desde Nirvana a Ramones, Clash a Tédio Boys, Guns
n’ Roses, sei lá. Foi traçado um caminho em cujas ruelas comecei a deambular.
Onde cabem aí «Os amigos
de Gaspar»? Qual é o papel da infância nesta construção?
A personagem do Anaquim tem uma inocência e uma curiosidade
que só é comparável à das crianças, bem como o espírito saltitão. «Os amigos do
Gaspar» é das infelizmente poucas referências infanto-juvenis que podemos
encontrar na cultura portuguesa e que também se move dentro destes conceitos.
O que se pode fazer
que sirva apenas o propósito de ter pinta?
Cofiar a barba, contar piadas mesmo secas a altas horas da
noite, andar de t-shirt no inverno, tanta coisa…
Há mais dois
projectos que têm a tua assinatura: The Speeding Bullets e The Cynicals, que
reconhecemos, pelo menos, dos primeiros lugares nos concursos de música
moderna. Medo do tédio?
Não, apenas uma necessidade de expressão musical tão plural
que seria difícil reuni-las todas num só projecto. Quando se consegue ver
beleza em quase tudo o que é música, não se torna nada fácil condensar os
gostos num só universo. Ainda assim Anaquim é uma galáxia em expansão.
Assinalável é que
continuam todos activos, com concertos até.
Sim, embora os Cynicals de momento estejam parados, ainda há
dias toquei com os Speeding Bullets em Inglaterra, onde o espírito psychobilly
continua bem vivo.
O Luís Duarte toca
contigo nos três projectos. Ele afirma que, em Anaquim, toca o que for preciso
com o amigo José Rebola. É um cúmplice natural?
É. É estranho quando estou num palco e não está lá o Luís.
Ele também tem um gosto extremamente heterogéneo, é uma excelente pessoa e
excelente músico, em boa verdade, como todos os elementos da banda.
Como surgiram os
restantes companheiros para este disco?
Surgiram de outros universos pessoais e musicais, pessoas
que só conheci mais tarde, mas com as quais fiquei entusiasmando com a
perspectiva de poder vir a trabalhar. Aconteceu em Anaquim e ainda bem que
aconteceu. Como diz o Pedro, passamos mais de oito por cento do tempo fora de
palco e é importante trabalhar com amigos. Temos a felicidade de nos poder
chamar amigos nesta banda.
Coimbra é um berço
possível para Anaquim, claro. Mas improvável. Ou não?
Penso que não. É bom que Coimbra seja tida como a cidade do Rock, mas
penso que não é positivo sermos limitados a esse rótulo. Começam a surgir muitos
projectos de outra índole que devem ser tidos também como uma expressão natural
do rico ambiente criativo que se vive em Coimbra.