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 16.03.2010 | Música | Entrevista

Anaquim: arde, mas cura

 

As Vidas dos Outros, álbum de estreia de Anaquim, passou entre bocas a cantar e está nas parangonas. Em vésperas dos concertos de lançamento em Coimbra e Lisboa, o RASCUNHO foi ouvir o coração ao duende apadrinhado por A Guerra das Estrelas.

 

Anaquim nasceu em 2007. O psychobilly The Speeding Bullets e o punk-rock cabaret de The Cynicals não bastaram para satisfazer José Rebola, que agarrou num conjunto de canções esquecidas, deu-lhes a ironia de um português culto com maneiras de bairro e a acutilância da infância. Tudo muito antagónico e real, como os dias, que começou a ser apresentado ao público com o EP Prólogo.

 

Em 2008, a equipa do programa «Quilómetro Zero», liderada por J.P. Simões, chamou o duende cronista à televisão e Rebola foi obrigado a fazer do projecto banda, com João Santiago, Pedro Ferreira, Filipe Ferreira e Luís Duarte. Pouco mais de um ano depois, surge As Vidas dos Outros, com a chancela da Universal. Entre os convidados estão Ana Bacalhau (Deolinda), Ricardo Reis e mesmo «Os amigos de Gaspar», série infantil da RTP nos finais dos 1980, que Sérgio Godinho musicou.

 

O álbum é apresentado esta quarta-feira, dia 17, no Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra, e na quinta-feira, dia 18, no Cabaret Maxime, em Lisboa (ambos marcados para as 21h00). O RASCUNHO quis conhecer melhor Anaquim antes dos concertos e foi ouvir o seu criador, José Rebola, e saber que história é essa de trazer as guerras de George Lucas para uma basta patuscada de canções portuguesas.

 

Começar a vida editorial pela Universal é notável. Como aconteceu?

Na verdade, é daquelas notícias boas que surgem um pouco por acaso, na medida em que não foi premeditado. O projecto começou um pouco ao sabor do vento, foi crescendo e aprendendo assim, mas depois dos primeiros passos com a Caminhos sem Atalho foi bom atracarmos no barco da Sons em Transito, que nos conduziu rumo à Universal. Tudo aconteceu muito naturalmente.

 

A participação no «Quilómetro Zero» (RTP2), em 2008, impulsionou este início de carreira?

Sem dúvida! Aliás, devemos ao «Quilómetro Zero» o facto de este projecto ver a luz do dia ao vivo, de ser uma banda e não um projecto a solo. Isto porque só convidei outros músicos quando foi preciso gravar um ensaio para o programa, uma vez que na altura o projecto estava um pouco na gaveta! A partir daí nunca mais desgrudámos e a formação manteve-se, tal era a cumplicidade.

 

JP Simões disse que Anaquim é um «bálsamo para a aspereza do quotidiano». Este perfume parece leve, mas queima.

Queima um pouco, mas o que arde cura! Não queremos de maneira nenhuma fazer a crítica pela crítica, de maneira destrutiva, e se apontamos o dedo a certos aspectos da sociedade é porque achamos que há maneira de os melhorar. Para essa melhoria o primeiro passo é haver um alerta social lúcido desses problemas. Esse alerta é um dos aspectos que tentamos veicular com este trabalho.

 

Os projectos cantados em português ganharam espaço no mercado. Que resposta esperam do público?

Até agora a resposta e o apoio do público têm sido fenomenais. Penso que as pessoas se revêem um pouco nos nossos temas e na nossa maneira de estar. Assim sendo, as letras tornam-se uma conversa e está dado o mote para que se troquem ideias. O facto de ser em português facilita, mas exige que essas ideias estejam bem talhadas.

 

A Deolinda é uma das responsáveis pelo novo fôlego. Curiosamente, é uma personagem, como Anaquim. O que levou a convidar a Ana Bacalhau para cantar convosco?

Anaquim procura e fala das peculiaridades dos portugueses e de ser português, missão que eu penso ser comum à da Deolinda. Embora haja muitos pontos de divergência, há algo que aglutina estas visões de Portugal e a perspectiva de trabalhar com alguém da craveira da Ana levou a que se ultrapassasse a barreira da timidez e que surgisse o convite, que ela gentilmente aceitou. O tema ficou fantástico e deu ao nosso disco um toque popular que tornou a palete de expressão musical ainda mais colorida

 

A canção que leva Ana Bacalhau ao disco, O meu coração, tem um balanço que poderia ser de Deolinda. Foi composta de deliberadamente?

O tema só foi composto depois de a Ana aceitar o convite. Assim, reflecte o carácter festivo da nossa música e também da personalidade da Ana. A música acaba por ser uma marcha, o que pode não ser tão intuitivo para o território da Deolinda como o fado malandro (e o rock, que eu sei que eles no fundo têm uma costela escondida de rockeiros). De qualquer modo, a personagem da Ana nesta canção não foi criada a pensar em Deolinda mas simplesmente numa personagem que lhe desse gozo encarnar.

 

Onde fica a «feira da ladra dos corações» de que ela que fala?

Fica por todo o lado! Por vezes vestimos uma capa por cima dos nossos corações, e acabamos por revelá-los de surpresa nos sítios mais inóspitos e ao simples preço da amizade.

 

 

Anaquim é uma personagem do filme A Guerra das Estrelas. É difícil casar o imaginário estelar do George Lucas com o bairro de luz e de becos que se reconhece em As Vidas dos Outros. Mas há uma história, um propósito neste duende.

Sim. O propósito do nome foi apenas reflectir o carácter dual que todos temos dentro de nós. Somos todos uma dicotomia entre o bem e o mal, se quisermos levar as coisas ao extremo, e o Anakin Skywalker é a vítima máxima dessa dicotomia. Aqui, surge como um aviso que podemos ter controlo sobre essa dicotomia, e escolher as nossas reacções aos acontecimentos que nos podem fazer pender para um lado ou para outro. O duende em si não tem passado, não tem história, e então toda a observação e crónica influencia essas acções e reacções.

 

De onde é vertido este bairro, esta canções, estas ironias?

Dos olhos de cada um. Se soubermos e quisermos olhar em redor, vemos tudo aquilo que o Anaquim vê neste disco. A observação de costumes e comportamentos e a consequente reflexão é a melhor maneira de vencermos a «idade dos porquê» onde o Anaquim ainda está.

 

 

Com que discos é que a tua irmã te ensinou a ser «alguém do Rock»?

Ah ah! Tantos! Desde Nirvana a Ramones, Clash a Tédio Boys, Guns n’ Roses, sei lá. Foi traçado um caminho em cujas ruelas comecei a deambular.

 

Onde cabem aí «Os amigos de Gaspar»? Qual é o papel da infância nesta construção?

A personagem do Anaquim tem uma inocência e uma curiosidade que só é comparável à das crianças, bem como o espírito saltitão. «Os amigos do Gaspar» é das infelizmente poucas referências infanto-juvenis que podemos encontrar na cultura portuguesa e que também se move dentro destes conceitos.

 

O que se pode fazer que sirva apenas o propósito de ter pinta?

Cofiar a barba, contar piadas mesmo secas a altas horas da noite, andar de t-shirt no inverno, tanta coisa…

 

Há mais dois projectos que têm a tua assinatura: The Speeding Bullets e The Cynicals, que reconhecemos, pelo menos, dos primeiros lugares nos concursos de música moderna. Medo do tédio?

Não, apenas uma necessidade de expressão musical tão plural que seria difícil reuni-las todas num só projecto. Quando se consegue ver beleza em quase tudo o que é música, não se torna nada fácil condensar os gostos num só universo. Ainda assim Anaquim é uma galáxia em expansão.

 

Assinalável é que continuam todos activos, com concertos até.

 

Sim, embora os Cynicals de momento estejam parados, ainda há dias toquei com os Speeding Bullets em Inglaterra, onde o espírito psychobilly continua bem vivo.

 

O Luís Duarte toca contigo nos três projectos. Ele afirma que, em Anaquim, toca o que for preciso com o amigo José Rebola. É um cúmplice natural?

É. É estranho quando estou num palco e não está lá o Luís. Ele também tem um gosto extremamente heterogéneo, é uma excelente pessoa e excelente músico, em boa verdade, como todos os elementos da banda.

 

Como surgiram os restantes companheiros para este disco?

Surgiram de outros universos pessoais e musicais, pessoas que só conheci mais tarde, mas com as quais fiquei entusiasmando com a perspectiva de poder vir a trabalhar. Aconteceu em Anaquim e ainda bem que aconteceu. Como diz o Pedro, passamos mais de oito por cento do tempo fora de palco e é importante trabalhar com amigos. Temos a felicidade de nos poder chamar amigos nesta banda.

 

Coimbra é um berço possível para Anaquim, claro. Mas improvável. Ou não?

Penso que não. É bom que Coimbra seja tida como a cidade do Rock, mas penso que não é positivo sermos limitados a esse rótulo. Começam a surgir muitos projectos de outra índole que devem ser tidos também como uma expressão natural do rico ambiente criativo que se vive em Coimbra.

 

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Hugo Torres
 
etiquetaEtiquetas: Anaquim, Universal, Deolinda,  
 
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