19.03.2010 | Música | Ao Vivo
Fingimos ser crianças e dançámos com Anaquim
A apresentação de As Vidas dos Outros levou a festa ao Maxime, mas muito mais: reiterou a inteligência de Anaquim e a empatia que provoca. Ana Bacalhau esteve lá e cantou. O RASCUNHO também e trouxe fotografias.
Cabaret Maxime,
Lisboa, 18 de Março de 2010
Anaquim é um caso de popularidade em potência. A ironia e a
festividade das canções aliadas à discreta inteligência e evidente alegria em
palco permitem antever a prosperidade deste duende de Coimbra. É certo que a
aritmética está longe destas contas, que se fazem a torto e a direito,
vaticinando novas estrelas estivais à medida do gosto e da disposição
casuística de cada um. Mas podem escrever.
As Vidas dos Outros (ed. Universal, 2010) é o álbum de estreia deste novo projecto criado por José
Rebola, que conhecemos de outras andanças e de sons muito diversos, como o psychobilly
de The Speeding Bullets e o punk-rock cabaret de The Cynicals. É com este disco
– homónimo do primeiro single – que vão percorrer o país, reunindo, muito
provavelmente, mais e mais admiradores.
Foi o que sucedeu, esta quinta-feira à noite, no Maxime, em
Lisboa, no segundo concerto de lançamento do álbum (o primeiro aconteceu em
Coimbra, um dia antes). Apesar do som menos bom, o quinteto conseguiu chegar ao
público através da cumplicidade, da substância das composições, ricas em
estórias e cenários diversos, e da recuperação de um imaginário caro aos
infantes dos 1980.
«Os amigos de Gaspar» eram esperados, na parte final de Na minha rua, mas o genérico de «As
Aventuras de Tom Sawyer», feito trunfo de espadas, não. E foi aqui que Anaquim
afastou renitências reminiscentes e deixou a plateia a cantar a plenos pulmões,
a aplaudir de pé, pedindo outra canção e outra, embrulhados pelo carácter de
cronista desta personagem apadrinha por A
Guerra das Estrelas (ler entrevista).
A música cantada em português tem cativado sobremaneira. A
Deolinda foi a última grande responsável pelo fenómeno e Ana Bacalhau participa
neste disco – dando mãos, mais do que passando testemunho –, em O meu coração, canção que explora os
limites da razão e das emoções (que mais?). O microfone que jazia solitário
desde o início do concerto fazia prever a surpresa, que serviu de cereja no
topo do bolo.
Pastelaria que, de Coimbra, teve cobertura de José Afonso,
com ensaio sobre Os vampiros e versão
de A morte saiu à rua. Esta última,
em particular, foi um momento arriscado de Anaquim – talvez o mais arriscado e o
que acabou por recordar aos presentes, sem subterfúgios, em desfavor de José
Rebola, embora sem qualquer descrédito, do que são capazes os mais exímios
letristas portugueses. A noite ficaria sem mácula. E, à saída, viam-se discos a
seguirem para novas casas.
As fotografias abaixo são de Fábio Teixeira.
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