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Jean-Quentin Châtelain em «Ode Maritime», de Claude Régy

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 03.04.2010 | Teatro | Ao Vivo

Relato marítimo, o Pessoa de Claude Régy

 

A Ode Marítima de Álvaro de Campos está a percorrer, até final de Maio, as salas de teatro gaulesas, de Paris a Reims. O RASCUNHO pinta algumas impressões da encenação protagonizada por Jean-Quentin Châtelain.

 

É um cais deserto, e um homem sozinho. Tem a cabeça voltada para o mar inexistente, e durante duas horas, debita versos, como se os esvaziasse de vida. O homem vestido de preto vai sendo ora aclarado, ora escurecido pela iluminação. De vez em quando, um ruído interrompe as suas palavras abstractas. Não se sabe se é manhã ou noite, sabe-se que não é ali, que é num nenhures a milhas dos astros, do sol ou da chuva, a quilómetros do tempo que passa ou do tempo que faz.

 

Esta é pelo menos a impressão com que se fica perante a encenação de Ode Marítima, poema de Álvaro de Campos publicado em 1915 na revista Orpheu, pelo dramaturgo francês Claude Régy. Ode Maritime percorre até ao final de Maio as salas de teatro do país dos gauleses – de Paris a Reims – depois de ter estreado em Julho do ano passado no Festival d’Avignon.

 

As sinopses deste encontro entre Claude Régy e o poeta Fernando Pessoa aludem ao vermelho vivo dos crimes dos piratas, ao azul profundo das viagens, evocam o delírio e o mistério das partidas e chegadas. Mas esta diversidade só está mesmo no poema de Álvaro de Campos. A Ode Marítima, obra tradicionalmente associada ao período futurista e sensacionista do heterónimo pessoano, tem um ritmo intermitente. Ela parte de um cais moderno, para em certos momentos desembocar em mares mortos, imóveis, angustiantes, e para noutras vezes mergulhar no oceano de uma vida enérgica, de uma imaginação levada pela ebriedade do diverso. Ora, na Ode Maritime de Claude Régy apenas restou a primeira direcção, como se, na viagem a bordo deste poema-barco, o único destino fosse essa espécie de seasickness espiritual descrita por Álvaro de Campos. No monólogo estático interpretado por Jean-Quentin Châtelain, o vazio submergiu por completo a canção de embalar de uma casa de infância à beira Tejo, diluiu a azáfama em alto mar, e apagou as mãos que tocavam no rosto durante o grito do marinheiro Jim Barns. Diante do palco monótono, tem-se somente a impressão de que mil neurasténicos se esforçaram para dar um timbre monocórdico ao actor do poema, de que mil tísicos inventaram o cenário de aço para que ele se fizesse uma construção higiénica, forte, prática. Entre o público, algumas pessoas remexem-se nos bancos, agitam as mãos junto à cabeça, ou saem a meio da peça com uma indiferença cansada.

 

São duas horas diante do exercício de memória de um homem: os versos que cantam o mar e as máquinas, ecoam como uma onda gravada, que é preciso repetir. A existir, o mar que por ali se ausculta já não lembra o ritmo exaltado dos poemas de Walt Whitman; ele tem, isso sim, qualquer coisa do som de um telefonema para os castelos burocráticos inventados por Franz Kafka. Onde quer que se passe esta peça, ela está longe de nós. O corpo e a voz de Jean-Quentin Châtelain permanecem inertes. O palco, que não muda ao longo da representação, é um cais de rigor geométrico. As luzes, que oscilam entre o azul e o vermelho, e os sons, que variam de intensidade e de duração, ainda movimentam tenuemente os versos. Mas mesmo eles apenas culminam no silêncio, e no lampejo branco com que termina o espectáculo.

 

O final da representação é coroado com um aplauso, como prescreve a douceur des moeurs. A salva de palmas parece um súbito encontro, quer para o actor quer para os espectadores: dir-se-ia que ambos vêm à superfície das águas paradas em que se tinham deitado. O público levanta-se, livre para correr até à saída ou para homenagear a voz, admita-se, incansável de Jean-Quentin Châtelain. Quanto ao interprete suíço, ele ganha finalmente desenvoltura para se mover e sorrir: curva as costas enquanto agradece os aplausos, vai e vem sem cessa ao palco. De qualquer modo, abandona-se a peça, como se se saísse da Noite. E que não se confunda, a Noite em que habitámos ali perdeu a cadência intempestiva e bem pessoana de um sonho, para guardar apenas as horas compridas e modernas de uma insónia.

Maria da Luz Correia
 
etiquetaEtiquetas: Fernando Pessoa, Álvaro de Campos, Festival d’Avignon, Claude Régy, Jean-Quentin Châtelain,  
 
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