The Soaked Lamb ainda fazem «música com paredes de cinquenta centímetros»
O RASCUNHO falou com o hiperactivo Afonso Cruz a propósito de Hats & Chairs. A música teve papel central, mas a conversa foi ainda ao cinema e à literatura – e ficámos a saber que este ano terá mais um livro, com Mário de Sá-Carneiro.
Hats & Chairs (ed.
Panóplia) está nas lojas. É o segundo álbum do sexteto anacrónico The Soaked
Lamb. A caravana está pronta para levar os blues ao país. As paragens, já muito
do nosso tempo, acontecem em Lisboa, Coimbra, Almada, Porto, Guimarães, Vila
Nova de Gaia, Loulé e Albufeira.
Afonso Cruz conversou com o RASCUNHO sobre o novo álbum, o
segundo, e dessa cor das primeiras décadas do século passado que recuperam com
profundidade e compromisso. Toca guitarra, ukulele, harmónica, banjo, guitarra
havaiana. E escreve, como nos livros. E compõe, como nos filmes de animação. Também
sobre isso se falou, com novidades a surgir pelo caminho: entre elas, o
regresso à Quetzal ainda este ano.
O título do disco, Hats & Chairs, é vertido de uma lei
interna. Quem escreveu os regulamentos?
Todos. Somos uma ditadura de seis pessoas. E ainda nenhum de
nós caiu da cadeira.
A Mariana Pimenta
Lima tem oito anos e toca violino em Grain
by grain. É um elogio à família? A melodia é todo um argumento para filme.
Costumo dizer que nem as melhores bandas de ciganos têm tantos
laços familiares como nós. Comparados connosco, não passam de ciganos
relativos. Temos primos, irmãos, cônjuges, cunhados, filhos, tudo a participar
na banda, directa ou indirectamente. Mesmo os que não têm laços familiares são
da família.
Grain by grain é
uma valsa com referências explícitas a Dylan Thomas. Nada melhor do que uma
menina de oito anos a tocar um violino cor-de-rosa para demonstrar este verso: «death
shal have no dominion».
É fácil aplicar-vos o
adjectivo «cinematográfico», com o imaginário que montam muito além da música.
Terá que ver com pintarem uma realidade tão distante do público?
Tentamos não estar distantes do público, mesmo quando
tocamos ao vivo. Mas o cinema faz parte da banda. As melhores músicas, julgo
eu, são as que se podem ver.
Sentem-se ficção?
Personagens fictícias da vida real, como toda a gente.
Pessoalmente não me importava de ser uma personagem real da literatura. Mas no
fundo acho que apenas tentamos ser iguais a nós próprios (parafraseando vários
treinadores de futebol).
Por falar em cinema:
como corre «Histórias de Molero»? Ainda há semanas o Monstra lembrou a série,
exibindo Todos os Gajos Têm Um Tio Maluco (2006).
Acho que, acima de tudo, o livro é muito melhor do que a
série. Mas gostei muito de ter a possibilidade de realizar esses filmes. Dinis
Machado foi um dos autores que mais gostei de ler e, das poucas vezes que
estive com ele, no meio de livros, cafés e cigarrilhas (não se pensa da mesma
maneira quando se fuma, dizia ele), acabei por ficar com boas histórias para
contar.
Na animação, a
intromissão da literatura é uma evidência, agora com Dinis Machado e antes com
Mário de Sá-Carneiro. Onde se cruzam estas duas áreas de criação com a música.
Em termos imediatos e superficiais, raramente cruzo as duas
áreas, mas as intromissões são os tijolos da personalidade. Quando se faz uma
coisa, essa coisa carrega toda a nossa experiência. Eu não faço um traço, um
desenho, sem que isso tenha uma pentatónica de blues. Não é possível fazer uma
coisa sem os tentáculos da outra. A música não é um fenómeno estanque que vive
sem o resto da nossa vida.
E por falar em Mário de Sá-Carneiro: ele ainda vai ser parte
do meu próximo romance a editar este ano na Quetzal.
Escreves quase todas
as letras deste disco. Como acontece a repartição de estórias – esta para
canção, esta para livro, esta para a tela?
Compus quase todas as músicas deste disco, mas as letras
reparto os louros com o Gito (o contrabaixista) e, mais espaçadamente, com a
Mariana (a vocalista). As histórias têm o seu espaço natural. Já nascem
músicas, letras, imagens ou mesmo romances inteiros. É só tentar perceber a sua
inclinação genética.
É de propósito que a
personagem que figura na capa de Os
Livros Que Devoraram o Meu Pai [ed. Caminho, 2010] usa chapéu?
É de propósito apenas porque a figura da capa é Mr.
Prendick, personagem de Wells. Nessa altura, toda a gente usava chapéu. Mesmo
os sobreviventes das experiências de Moreau. The Soaked Lamb também são
sobreviventes dessa época. O chapéu é um resquício desse tempo e um adereço que
partilhamos com outras décadas. Assim como o cóccix é um vestígio da cauda.
Vamos tentar a política de corredor parlamentar: o
ilustrador Pedro Vieira qualificou-o como o «homem mais Leonardo da Vinci no
nosso burgo». Merece comentário?
Claro. Toda a gente sabe que o Pedro nunca exagera. Mas na
verdade eu só leio o blogue dele com medo de ver a capa do disco Hats &
Chairs na categoria «mÚSICA & dESIGN». Ou embrulhado num comentário
do Ruca.
Dizem que «não têm
tempo para ter pressa», que «fazem as músicas como há 70 ou 80 anos». Um luxo?
A modernidade compõe-se lentamente.
A pressa é uma característica moderna. É importante fazer
lixo, coisas que não durem para que se comprem mais e cada vez mais. No
princípio do século XX, as janelas das casas ainda tinham uma imponente moldura
de alvenaria, em vez daquelas folhas de mármore com um ou dois centímetros. As
paredes tinham meio metro de espessura. Agora têm um tijolo de finura, a mesma
espessura que deixa passar as discussões dos vizinhos, bem como o frio e o
calor. Houve uma altura em que as pessoas pensavam no mundo como um lugar para
durar. Agora pensam-no como um lugar para explorar.
Nós ainda tentamos fazer música com paredes de cinquenta
centímetros.
Como se construiu a
ponte entre Homemade Blues (2007), a
estreia em disco, e este Hats &
Chairs?
O mais naturalmente possível. Como uma relação. Foram
crescendo os afectos, as responsabilidades, os compromissos, a sabedoria.
Agora, mesmo quando desafinamos por fora, estamos afinados por dentro. Cada
disco é o pilar do próximo. E dentro do próximo estarão os anteriores, na sua
totalidade.
Que cuidados
narrativos são assumidos para o conjunto da obra?
Temos a possibilidade de contar a história que queremos.
Felizmente estamos livres daquelas vozes que nos impedem de certas coisas só
porque, alegadamente, não vendem. A nossa narrativa é um drama que temos
esperanças que acabe bem. Acho que é esse o espírito dos blues (que são parte
fundamental da banda).
Leonel Vieira
escolheu quatro canções desse primeiro lote, para musicar A Arte de Roubar.
A comédia e a música, ambas negras, encontraram-se bem?
Perfeitamente. Algumas das músicas que fazemos já trazem
alguma solidão, algum desespero, pessimismo, equívocos e vinganças, que são,
como todos sabem, os verdadeiros ingredientes da comédia. Apesar disso, também
temos coisas mais leves, inadequadas para filmes como esse do Leonel, mas
perfeitamente capazes de fazer publicidade a um refogado.
O borrego ensopado
que vos dá nome também vos deu de comer em muitos domingos. The Soaked Lamb é
um nome qualquer que descobriram à mesa?
Comer é uma das actividades mais sagradas e, como ritual
sacro, das mais antigas. Uma pessoa olha para a Igreja e percebe que aquilo se
desenrola à volta de uma ceia a comer um cordeiro. Não havia motivo nenhum para
sermos diferentes.
Como correu a
apresentação de Hats & Chairs no
Ivity Empty Room, em Lisboa? Qual foi a resposta do público?
A apresentação não fez jus ao nome do espaço [Empty Room]:
estava muito cheio. Tivemos alguns problemas com o som. Julgo que as pessoas
compreenderam. Vi algumas a desviarem-se dos feedbacks mantendo um
sorriso no rosto.
Segue-se o périplo
das Fnac, com idas a salas de espectáculos em Coimbra, Porto e Guimarães pelo
meio, antes de voltarem à noite de Lisboa no Musicbox. Como são recebidos fora
de casa?
Jogamos bem fora de casa. Inclusivamente, já houve pessoas
sóbrias que nos chegaram a pedir autógrafos.
Quando o percurso
numa estrada suburbana segue lento, onde buscam as raparigas ruivas que olham
para o céu? Os 4L não abundam.
Essa letra foi escrita por um amigo, o Carlos Cunha, que se baseou na
sua tragédia pessoal, o IC19. Ele conduz uma 4L e, podemos dizer, tem uma
inclinação pela Nicole Kidman. É disto que se fazem os blues.