28.04.2010 | Cinema | IndieLisboa'10
«O cinema português é feito contra décadas de trampa»
As Lisbon Talks convocaram um debate provocatório sobre os «Estados gerais do cinema português». E saíram ideias do São Jorge: acabar com o FICA, mudar o ICA, alterar o conceito de «obra criativa» para as televisões e criar uma agência de promoção.
A internacionalização e a diversificação de fontes de
financiamento do cinema português aqueceram, esta terça-feira, a sala 2 do São
Jorge. A necessidade de mudar os regulamentos do Instituto do Cinema e do
Audiovisual gerou algum consenso, mas a tangente sobre o papel da RTP exaltou o
debate.
Paula Moura Pinheiro moderou a conversa sobre os «Estados
gerais do cinema português», inserido nas Lisbon Talks do IndieLisboa. Pedro
Costa interpelou directamente a subdirectora da RTP2 sobre o horário de
exibição de um dos seus filmes, Juventude
em Marcha, que aconteceu em Junho do ano passado, depois da meia-noite.
Em causa, a premência de a programação do segundo canal da
estação pública exibir mais cinema português e em horas nobres. A jornalista
defendeu a necessidade de manter um certo share,
à volta dos cinco por cento, sem o qual se teme a alienação do canal, como
ameaçou por Morais Sarmento no último Governo PSD/CDS-PP.
Inês de Medeiros, deputada do PS à Assembleia da República,
estava presente e garantiu que a possibilidade nem sequer está na agenda
política. Ainda assim, ficou no ar a questão sobre as razões que levam a crer
que, no caso, Juventude em Marcha,
que esteve na selecção oficial de Cannes, não tem audiência.
A ideia de que deve haver um «maior nível de exigência», no
que respeita à RTP, foi defendida no início do debate, numa carta escrita pela
ministra da Cultura, que Miguel Valverde, co-director do IndieLisboa, leu.
Gabriela Canavilhas apontou ainda, na missiva, o problema da distorção do
mercado de distribuição.
A luta dos conteúdos por plataformas como a Zon e a Meo foi
sinalizada como um problema a resolver por Inês de Medeiros, que verbalizou a
necessidade de alterar a lei da televisão e a lei geral do cinema, assim como
de redefinir o conceito de «obra criativa» – que actualmente abrange demasiada
produção mediática – e as suas quotas em televisão. E, paradoxalmente mas por fim, acabar com «este frenesim legislativo».
Pedro Costa argumentou que são os regulamentos do ICA que
devem ser mudados, não a lei – o que seria moroso no quadro político presente. A
entrada em cena das opções governativas desembocaram, inevitavelmente, no
recentemente criado e mal-amado Fundo para o Cinema e Audiovisual, cujo fim foi
amplamente defendido.
No entanto, Inês de Medeiros relevou que «seria uma
irresponsabilidade» fazê-lo agora, quando o Quadro de Referência Estratégico
Nacional já lhe atribuiu 30 milhões de euros. O encerramento compulsivo do
FICA, cuja génese a deputada chegou a apoiar, acabaria com esta verba. O
dinheiro é um problema recorrente. A forma de o atribuir também.
Qual nova geração?
João Salaviza assegura que «o dinheiro existe, mas é mal
distribuído». «Gasta-se muito dinheiro em filmes que não vão além de Badajoz».
Pedro Borges foi mais longe: «O cinema novo português é feito contra décadas de
trampa». O distribuidor e produtor da Midas Filmes considera que se «vive em
guerra civil pelo menos desde a década de 60».
A ausência sucessiva de novas gerações de cineastas é uma
consequência. O próprio Salaviza, realizador de Arena, Palma de Ouro de 2009, recusa «ser uma espécie de bandeira
de uma geração que não existe». «Somos dois ou três, que tivemos o engenho de
conseguir o apoio do Estado.»
Miguel Valverde recordou as declarações de Jean Saint-Geours
em 1996. O então director da Cinemateca Francesa vaticinou uma «nova vaga de
realizadores» para Portugal, depois de ver Douro,
Fauna Fluvial, de Manoel de Oliveira, com banda sonora refeita por Emmanuel
Nunes. «Não me parece que a tenhamos.»
A internacionalização é o caminho para o cinema português –
embora Pedro Costa, com «essa tanga dos festivais» em mente, a veja como uma «ultra
falsa questão». «Não vale a pena o Indie andar a fantasiar [com o número de
bilhetes emitidos]. Internacionalizar é estrear comercialmente».
A criação de uma agência de promoção e divulgação do cinema
português poderia, junto com o ICA, segundo Inês de Medeiros, facilitar
contactos e conseguir apoios para os filmes irem aos festivais internacionais. Miguel
Valverde entende que o contrário também é válido: trazer os agentes
internacionais a Portugal. É o que o IndieLisboa faz com a Lisbon Screenings e
o Curtas Vila do Conde com a Agência da Curta-Metragem.
«Internacionalização não são agências», atirou Pedro Costa,
que insistiu na necessidade de mudar os regulamentos do ICA. «Tudo o resto é
fantasia». O realizador de Ne Change Rien apresentou, em Maio, junto com vários realizadores e produtores, um manifesto com um conjunto de propostas para evitar a «catástrofe eminente» do cinema português.
«Não querem mudar, ninguém nos ouve», lamentou.
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