29.05.2010 | Cinema | Óbito
A morte de um sonho americano
Dennis Hopper morreu este sábado à tarde em Los Angeles, a cidade que viu nascer e crescer um dos maiores ícones do cinema.
Dennis Hopper não poderia ter começado da melhor forma: os seus
dois primeiros papéis em cinema não só foram em Hollywood como lhe concederam a
oportunidade de partilhar o plateau com James Dean. Quer em Rebel Without A
Cause (1955) como em Giant (1956),
a sua relativa invisibilidade não evitou que Hopper se apaixonasse
perdidamente pela 7ª Arte; mesmo depois do abalo que sofreu ao ver uma das
personalidades que mais admirava morrer num desastre de automóvel (Dean, em
1955).
A grande bomba caiu no final dos Swingin’ Sixies, quando
1969 deu à luz Easy Rider. Um retrato
desencantado de uma América em busca de si própria, diziam uns; um estilo
emergente da dècoupage visual que se
reflectia em cada um que o via de modo diferente, afirmavam outros. Mas na base
de tudo isto estava uma sólida parceria estabelecida entre Hopper, Fonda e
Nicholson: os três já tinham trabalhado juntos em The Trip (1967), uma das experiências psicadélicas do cinema
pós-LSD que progressivamente ganhou um lugar de culto entre cinéfilos e afins,
em grande parte pelos jovens talentos que lentamente se descolavam da tela em
direcção algo maior que eles próprios, e agora Hopper dava os primeiros passos
na realização sem provavelmente saber quão longe as duas Harleys no deserto
americano o iriam levar.
Entre êxitos como actor – Apocalypse Now (1979), Rumble
Fish (1983) ou Blue Velvet (1986)
– e mais algumas experiências como realizador das quais se destaca o falhanço
de bilheteira The Last Movie (1971),
que muitos apontam ser o resultado das «mãos-largas» de um estúdio ainda meio
entorpecido pelo sucesso de Easy Rider,
Hopper não deixou de lado a sua faceta de fotógrafo e artista plástico,
tendo-se mesmo ligado a Andy Warhol e participado num dos seus famosos
screen-tests.
Depois de uma vida recheada de excessos, escândalos – Dennis
Hopper casou e divorciou-se cinco vezes – e até uma tentativa de suicídio que
oscilou entre a encenação e o pedido desesperado de ajuda, fazendo com que
entrasse num centro de reabilitação em inícios dos anos 80, Hopper fez a sua
última grande aparição cinematográfica ao lado de Penélope Cruz e Debbie Harry
em Elegy (2008), uma adaptação de um
romance de Philip Roth por parte da realizadora espanhola Isabel Coixet.
Hopper tornou-se mito muito antes da fatídica notícia da sua
morte ter sido divulgada este sábado à tarde pelos media. Todo este processo de
mitificação hollywoodiana só prova o quão icónicas se tornaram as suas
contribuições para o cinema, e que apesar destas se irem tornar inevitavelmente
exponenciais após a sua morte – anunciada, pois Hopper não sobreviveu a um
cancro da próstata diagnosticado demasiado tarde –, o seu maior legado não será
constituído apenas pelos filmes que fez mas também pela revolução de estilo que
conduziu enquanto actor, realizador e artista. O mundo da 7ª Arte pode estar de
luto, mas toda a gente sabe que os génios são, afinal, imortais.
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