18.06.2010 | Música | Ao Vivo
Desenrascanço para celebrar Portugal
Com as actuações marcadas para um palco ao ar livre, foi num ambiente improvisadamente underground que, no 10 de Junho, se celebrou o rock cantado em português.
Instituto Superior
Técnico, Lisboa, 10 de Junho de 2010
A
10 de Junho, no dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, o
rock nacional esteve em destaque com cinco concertos no Instituto Superior
Técnico, numa organização conjunta da Associação de Estudantes e da Rádio Zero,
que fizeram por relativizar os humores de São Pedro.

Com
o início dos espectáculos marcado para as 18h00, foi mais de uma hora depois,
devido ao mau tempo e aos improvisos de última hora, que arrancaram as
actuações, num final de tarde chuvoso mas regado pela simpatia de febras e
imperiais, o menu ideal para festivaleiros de ocasião com pouca paciência para
preparar jantares gourmet. O público chegava a conta-gotas, em passo pouco
apressado e típico de um feriado cinzentão, cumprimentando-se como se todos
pertencessem à mesma turma e esperassem a chegada do professor para o início do
exame.

Em
palco – também ele improvisado e que, por isso, dificultava o contacto visual
entre público e bandas – o pontapé de saída foi dado pelos pouco mediáticos
Orphelia, que se apresentaram, pelo menos em parte, com o instrumental Yuri’s
night, que, ao que se sabe, surgiu de um desafio proposto pela Rádio Zero
para o passado 12 de Abril, dia em que se celebraram os 50 anos da primeira
viagem de um cosmonauta ao espaço – o soviético Yuri Gagarin. O tema, que
facilmente se poderia confundir com a vertente mais experimental de um ensaio,
parecia ter sido desenvolvido para tais condições atmosféricas, apelando à
chuva e convocando ainda alguma rigidez por parte do público, que continuava
entorpecido e revelava pouco entusiasmo.

Já
A Matilha, ou «apenas Matilha», como fez questão de referir um dos elementos,
não teve o dom de conseguir entusiasmar. Numa sonoridade que se situou algures
entre o rock poético dos portugueses Mundo Cão e a dinâmica algo previsível dos
britânicos Muse, nem os gritos nem a obstinação do vocalista espicaçaram a
plateia e a matilha, ainda que unida, foi perdendo o rumo a meio da viagem.
Pelo meio houve tempo para o poema Fim, da autoria de Mário de Sá-Carneiro
e anteriormente musicado por João Gil, e para Crise, matéria actual mas
que, tendo em conta o preçário convidativo para os concertos, não se tratou de
um tema na ordem do dia.

O
primeiro caso sério de empatia entre público e espectáculo chegou com a
tropicalidade adolescente d’Os
Capitães da Areia, projecto recentemente adoptado pela Amor Fúria e
liderado pelo auto-intitulado «Capitão Pedro», com o auxílio dos restantes
«Capitães». Em registo de música de época balnear e com a dose certa de batidas
dançáveis, Os Capitães mostram a habilidade necessária na escrita de canções
para construir temas orelhudos, com dedicatórias «às mulheres que nos fazem
sofrer» e aos Rapazes de Lisboa e, à imagem de uns Vampire Weekend, procuram a
escapatória ao pop rock tradicional no recurso a uma certa africanidade
reluzente, tão em voga nos últimos tempos. Em Dia de Portugal do Rock, foram,
no mesmo plano, os que menos justiça fizeram ao nome do festival mas os
primeiros a fazer levantar alguns pés do chão.

O
rebuliço estava lançado e continuou com a entrada em cena, ou no fundo da
cafetaria para sermos mais precisos, dos alunos mais velhos. Falamos d’Os Golpes, a quadrilha de ritmos
galopantes encabeçada por Manuel Fúria, o rosto por detrás da editora Amor Fúria. A turma, leia-se o
público, finalmente transpirava e berrava as palavras debitadas pelo tipo mais
popular do recreio – o dono da bola, mas não necessariamente o melhor jogador.
Os mais desprevenidos poderiam pensar que se tratava de um novo movimento
maçónico de causa confusa, mas a confusão maior ainda estava para vir.

Feromona era o nome que o cartaz
exibia a letras mais carregadas. Não era para menos. Para além de serem
responsáveis por um disco de estreia – Uma Vida A Direito –
entusiasmante, no verdadeiro sentido da palavra e não pela forma como foi
recebido pelos portugueses, davam um dos primeiros concertos após o
recém-lançamento de Desoliúde. Porém, não podemos
dizer que tenham aproveitado a ocasião para o apresentarem. A gradação
progressiva de entusiasmo no público caiu a pique perante uns tipos cujas
palavras eram imperceptíveis. A malta da turma ainda tentou entusiasmar-se
quando percebia que estavam perante temas como Psicologia, Mustang ou Conversa de cama. Num verso aqui e
ali, percebíamos que se tratava dessas canções. Quando soavam temas mais
recentes, a conversa era outra e os que não eram da turma sentiam-se excluídos
pelos tipos com instrumentos musicais, microfones e em tronco nu. A pintura até
poderia indicar um concerto agitado, mas não passou de um penoso ponto final no
recreio de um cinzentão dia de Portugal.
Texto: João Alexandre e Luís Carlos Soares Fotografias: Fábio Teixeira
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