Cinema
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4 Copas
Manuel Mozos, 2009
Há sempre coisas que não sabemos como dizer. Uma família sentada à mesa pode falar de tudo e mais alguma coisa, menos da sua inevitável desagregação – de que cor pintar as paredes da sala? Esposa e filha recomendam o amarelo, enquanto o marido sugere, em tom de novidade, a cor actual. Típico. Há coisas que não vemos e há coisas que escolhemos não ver.
Para Gabriel, interpretado por João Lagarto, tudo está bem como está. Mal consegue manter os olhos abertos para ler o jornal ao deitar, quanto mais para interpretar os sinais de descontentamento da mulher, Madalena (Margarida Marinho), por gritantes que sejam. Rita Martins é Diana, a filha leal, de maturidade precoce e ironia no bolso: venha a desilusão para a qual teve que forçar estrutura, sem antes resguardar um ou outro final feliz.
Quando a frágil superfície do que parece ser, à primeira vista, um ambiente familiar pacífico, se vê agitada pela traição de Madalena com um rapaz mais novo, Diana reclama para si a responsabilidade de reparar, a todo o custo, o casamento do pai, mesmo que isso implique seduzir o amante da madrasta, Miguel (Filipe Duarte). No fim todos têm um preço a pagar, especialmente Madalena, que acaba por ceder à tentação de um vício antigo, incapaz de apostar em algo mais que não na sorte.
Em 4 Copas é o jogo, e não o sonho, que comanda a vida. Com os pés assentes no terreno irregular do dia-a-dia mundano, as personagens procuram refúgio dos seus sonhos desfeitos nos jogos mais diversos, manobras de distracção mais e menos inofensivas. Para Gabriel, o marido traído, é o pinball; para Miguel uma engenhoca qualquer que manuseia enquanto Madalena o confronta com a urgência de um compromisso; para esta o bingo ou o póker; e, para Diana, uma brincadeira séria com um propósito nobre: armadilha na qual ela própria acaba por cair.
Se o início do filme nos apresenta retratos estanques de uma família que não se acanha ou apraz particularmente com a nossa presença – só por nós sentida –, podemos dizer que ele começa realmente quando abdica desse ritmo imposto pela apresentação inicial, para deixar que as personagens e as relações que estabelecem entre si e que lhes esbatem os limites ditem uma dinâmica própria, um ritmo quase espontâneo e, nesse sentido, imperfeito.
Cativados por essa mesma imperfeição, na nossa sede perplexa de sentido e ordem, acabamos por ser devolvidos a um perímetro algo claustrofóbico de segurança, sem que nos seja dada a oportunidade de sentir verdadeiramente a necessidade de um final feliz, ou antes, de um final tão linear. Na verdade, não se trata da escolha de um caminho fácil, antes da recuperação do controlo que, uma vez perdido, não pode reinstaurar-se sem prejuízo da complexidade para a qual precisamos de encontrar resposta. Quando a resposta é demasiado simples, a pergunta permanece, assombra-nos e dança à volta da solução insípida. Sorte a nossa.
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