Música
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Into the Wild, OST
Eddie Vedder, 2007
Christopher J. McCandless é um jovem como tantos outros.
Aluno de mérito, desportista e em vias de seguir para a universidade. No dia da
sua cerimónia de formatura, os pais oferecem-lhe um carro novo que ele deverá
usar no próximo ano lectivo e perguntam-lhe se ele já escolheu onde vai
continuar os estudos.
Mas Christopher não quer
nem o carro nem ir para uma nova universidade. Christopher quer viver.
Contaminado pela estranha e abusiva relação dos pais, Christopher ambiciona
desligar-se da civilização, de se reunir e encontrar com coisas e pessoas
reais. Não quer ter obrigações nem relacionamentos impostos. Christopher quer
viver.
Em 1990, deixa de
comunicar com a família. Sem aviso prévio, esvazia o quarto que ocupava em
Emory, doa todo o dinheiro que tinha no banco para uma instituição de caridade
– cerca de 24 mil dólares – entra no seu carro velho e parte na aventura. O
objectivo é chegar às gélidas montanhas do Alaska.
Pelo caminho, Christopher
que agora se chama Alexander, encontra uma série de pessoas reais. Pessoas que,
tal como ele, não partilhavam da visão materialista e consumista da sociedade
norte-americana. Pessoas que apenas queriam viver. Tal como ele. Nessas
viagens, vai tomando contacto com realidades que se vão revelar úteis quando
chegar ao Alaska. Aprende a caçar, por exemplo, e compra livros sobre raízes e
plantas comestíveis que existem no Alaska. Durante mais de um ano o objectivo
passa por reunir as competências necessárias para sobreviver no Alaska
selvagem.
Christopher, que agora é
Alexander, chega ao Alaska com menos de cinco quilos de arroz, uma espingarda e
munições, alguns livros e um caderno onde vai fazer o relato da sua experiência
nas frias montanhas do Alaska. E é por esse diário assim que sabemos, por
exemplo, que Alexander viveu durante 112 dias, sozinho, no Alaska,
alimentando-se, sobretudo, de raízes de plantas e de frutos silvestres, mas
também de alguma carne de animais por ele caçados, como alces. Para abrigo,
encontrou uma caravana abandonada no meio da floresta e lá ficou durante o
Inverno, na tentativa de se abrigar da neve e do frio.
O inverno foi duro mas
Christopher sobreviveu. Com dificuldades, quase sem comida e muito mais magro,
partiu no início da Primavera na sua viagem de volta à civilização. O jovem
tinha tido a experiência de vida que ambicionara e quase dois anos depois do
seu desaparecimento, e com a família ainda sem saber por onde ele andava,
partia no caminho de volta a casa. No entanto, o degelo mostra um rio
impossível de atravessar e Christopher está agora preso no mesmo sítio onde
esperava encontrar um novo sentido para a sua vida. Volta para a caravana abandonada
mas fraco, sem comida, não encontra maneira de se salvar. Tenta várias vezes
atravessar o rio, mas sempre sem sucesso. Delirante pela falta de comida,
engana-se na hora de escolher uma planta para comer e acaba por ingerir um
fruto envenenado. Pesava 30 quilos.
Christopher morre em
finais de Agosto, sozinho, numa caravana abandonada no meio do Alaska. Em
Setembro, um grupo de caçadores encontra o seu corpo. Numa das últimas entradas
no seu diário, onde dá conta do seu crescente estado de fraqueza física e
mental, poder ler-se «happiness is only real when shared».
Em 2007, inspirado pelo
livro de Jon Krakauer que por sua vez tinha sido inspirado no diário de
Christopher McCandless, Sean Penn decidiu realizar o filme que conta a história
da aventura de Alexander pela América selvagem. Para o papel principal escolhe
Emile Hirsch. Para autor da banda sonora escolhe Eddie Vedder.
É difícil imaginar no
mundo rock ‘n’ roll alguém mais adequado para contar esta história através da
música do que Eddie. O líder dos Pearl Jam desde sempre mostrou uma relação
difícil com o estrelato, assumindo quase sempre o papel de antivedeta na sua
bem sucedida carreira musical. Aliás, Eddie Vedder confirmou em entrevistas que
se não fosse pela música talvez tivesse percorrido o mesmo caminho que
Christopher McCandless. A música salvou Eddie e Eddie quis usar a música para
homenagear Christopher.
O álbum não é brilhante. A
voz de Eddie não é suficientemente explorada neste disco com muito folk e pouco
rock. Mas é nas letras que esta banda sonora se revela emocionante, sendo cada
faixa um capítulo detalhado da experiência de Alexander. A primeira metade
narra a vontade em partir, a vontade em conhecer a natureza e em quebrar
barreiras. Rise, Setting forth e Long nights dão conta do desejo de
exploração e da descoberta de coisas novas.
No entanto, à medida que
Christopher vai apercebendo que na solidão não consegue ser feliz, o álbum dá
conta do preço que o jovem teve de pagar para viver a experiência que teve. O
álbum é uma imensa batalha existencial onde somos colocados perante o lado bom
da partida, da busca por algo novo, mas também pela sensação de perda, os
excessos desse afastamento civilizacional e as consequências que isso pode
trazer.
Hard sun, The wolf e Society são as faixas mais fortes de
um disco a que parece sempre faltar algo. Se a mensagem da aventura de
Christopher é que é bom viver de forma simples, mas viver na simplicidade não é
viver em situações de extrema dificuldade, o álbum falha em passar essa ideia
ao ouvinte. E isto talvez aconteça porque ao disco faltam as imagens do filme
de Sean Penn. E talvez por isso estas músicas funcionem melhor na tela do que
na aparelhagem.
Eddie Vedder, que toca
praticamente todos os instrumentos no disco e só não escreveu duas das faixas,
faz um bom trabalho na banda sonora de Into the Wild. Mas não apresenta a
música que o filme merecia, porque a história vai se perdendo ao longo do álbum
e não é fácil continuar interessado nele, o que acaba por ser curioso uma vez
que no filme as mesmas canções funcionam muito bem. Mas em fim-de-semana dos
Óscares vale bem a pena ouvir uma das melhores bandas sonoras originais
rock dos últimos tempos.
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