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O lado rebelde dos bons rapazes

 

 

 

 
   
 Música  |

Bad Company

 Bad Company, 1974

 

 

Se estiver à procura de solos de guitarra avassaladores, letras profundas, mensagens subliminares em cada faixa e de um conceito unificador ao longo de todo o álbum, então o auto-intitulado disco de estreia dos Bad Company não é para si. Se, por outro lado, aquilo que lhe está a apetecer é ouvir um bom e despretensioso disco pop/rock, com baladas, sonoridades mais pesadas e a voz de um dos melhores vocalistas da sua geração, então Bad Company pode ser mesmo o acompanhante ideal para um fim-de-semana chuvoso.

 

No começo, explica-se o princípio. Os Bad Company foram um supergrupo formado em 1973 por Boz Burell, ex-baixista dos reis do rock progressivo King Crimson, Mick Ralphs, ex-guitarrista dos Mott the Hoople, Simon Kirke e Paul Rodgers, ex-baterista e vocalista, respectivamente, dos Free.

 

E o termo supergrupo não aparece porque os Bad Company em si foram extremamente bem sucedidos. Aparece, isso sim, porque cada um dos músicos tinha já alcançado a fama e o respeito da indústria e crítica musical em anteriores projectos. Se o passado de cada um dos membros não fosse já suficiente para garantir uma certa projecção inicial, então registe-se que os Bad Company foram o primeiro grupo representado pela editora Swan Song, propriedade, isso mesmo, dos Led Zeppelin.

 

Uns meses depois da formação, o grupo estava em estúdio para gravar aquele que viria a ser o seu primeiro e mais bem sucedido disco. Recordemos que estávamos em 1974, ano da revolução de Abril, certo, mas também um ano após o lançamento de Dark Side of the Moon e um ano antes da edição de Wish You Were Here, os dois discos mais consensuais dos Pink Floyd e que marcaram, irrefutavelmente, a década de 70. Por isso, fazer um disco cru, uma espécie de regresso ao rock pré-Dark Side era uma aposta arriscada. Mas se um supergrupo não arrisca quem o vai fazer?

 

Despidos de arranjos sonoros estratosféricos e com uma produção muito limpa e directa, longe, muito longe, das tendências supersónicas dos Floyd e seus seguidores, Bad Company apresenta-se como um álbum honesto de quatro músicos que apenas queriam tocar rock sem ter de contar uma história ao longo do álbum ou criar lógicas sequenciais entre faixas. Este é um disco simples, onde cada faixa vale por si e onde cada membro do conjunto contribui equitativamente para o sucesso do disco.

 

Claro que a linha de baixo no tema Bad company fica no ouvido, o riff de Can’t get enough é simples e directo, os primeiros segundos da surpreendente e bonita balada de Don’t let me down parecem saídos de um álbum gospel e que a voz de Paul Rodgers é doce, suave e apelativa. Mas é no todo que o disco acaba por encontrar a sua maior força, tornando-o simples de se ouvir e fácil de se gostar.

 

A atitude rebelde de Bad Company encontra correspondência na polémica e funk de Rock Steady, provavelmente a faixa mais pesada de todo o álbum e um dos poucos indicadores de que estávamos perante o disco de estreia da banda que deveria ressuscitar o rock puro e duro do início da década.

 

Baladas como Ready for love e Seagull mostram o outro lado destes maus rapazes, o lado mais introspectivo. Se o primeiro tema apresenta-se como a típica balada rock, estandardizada no timbre e no ritmo, já Seagull parece muito mais saído de um disco de country-rock do que de um supergrupo britânico.

 

A capa do álbum é ainda mais crua do que a música que contém. Negra e com o nome do grupo, e do disco, na diagonal em branco. Demasiado longe do homem em chamas ou do prisma a emitir raios de luz dos dois mega-sucessos dos Pink Floyd. Uma simplicidade que fica bem ao grupo e ao álbum que não é, de todo, uma obra-prima, mas mostra como é possível em 35 minutos apresentar oito temas agradáveis, diferentes, com atitude e personalidade.

 

Apesar de os discos vindouros não terem confirmado a qualidade do rock simples e upbeat dos Bad Company, o grupo britânico não deixa de poder reclamar um papel importante no início da viragem da sonoridade rock na década de 70, abrindo espaço tanto para alguns números contemporâneos, como os Boston, Lynyrd Skynyrd e Tom Petty, como para projectos futuros, como Bon Jovi, Asia, The Cult, Heart, Foreigner ou os The Raconteurs de Jack White.

 

Bem pelo contrário do sugerido pelo nome do grupo, o disco de estreia dos Bad Company é uma óptima companhia para um qualquer fim de tarde com a chuva a bater na janela, a lareira acesa e um bom livro entre as mãos.

 

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