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 Música  |

Born Like This

 DOOM, 2009

 

 

Born Like This marca o regresso do rapper e produtor DOOM (antes conhecido como MF Doom), um obscuro e inventivo rapper, figura quasi-mítica do hip hop norte-americano, misto de MC e vilão de banda desenhada, e o menos loiro dos homens da máscara de ferro conhecidos até hoje. DOOM traz na bagagem uma longa carreira de colaborações prolíficas com nomes tão notáveis como Nas, Danger Mouse ou Madlib (de longe a mais inspirada) e álbuns incrivelmente coesos, em que foi criando e depurando um estilo e um imaginário muito próprio. Mas poucos dos seus trabalhos a solo conseguem acertar na tecla tão precisamente, com tanta força e clarividência, como Born Like This, em que o falso desleixo das batidas e da colagem de samples é o tapete perfeito para o flow errante de DOOM, o desfiar de uma encruzilhada de referências pessoais e alusões à cultura popular, (Cellz começa com um texto de Bukowski lido na primeira pessoa, num sample retirado do documentário Born Into This), quase sempre abstracta, com recursos de vocabulário quase infinitos, ímpares no hip hop independente – se excluirmos Del Tha Funkee Homosapien – tudo cuspido numa média de três rimas por verso. Talvez «rima» nem seja a melhor palavra, porque DOOM não rima: alitera.

 

Há em todo o álbum traços evidentes da herança estética do já falecido J Dilla, produtor matricial do hip hop (dito) alternativo – os instrumentais de duas das melhores faixas do disco, Lightworks e Gazillion ear, são mesmo assinados pelo próprio Dilla. Mas o horizonte de DOOM abrange outras facções. A produção esparsa e por vezes minimal – partilhada com Jake One – de faixas como Yessir! aproxima-se da abordagem cerebral de, por exemplo, alguns trabalhos de GZA: por acaso ou talvez não, Yessir! conta com a participação de Raekwon The Chef, outros dos membros do clã Wu-Tang (podemos ainda encontrar mais um, Ghostface Killah, em Angelz). Atento a tudo isto esteve também o olho preguiçoso de Thom Yorke que, tendo (alegadamente) em DOOM o seu rapper favorito, contribuiu com uma remistura de Gazzilion ear, editada como faixa bónus do álbum, facto que é bem revelador da transversalidade que o trabalho do rapper tem, nos últimos anos, granjeado na cena independente, mesmo naquela mais distante da linguagem hip hop.

 

Tudo somado: DOOM continua a ser daqueles que percebeu que o hip hop já é um jovem adulto, e não pode dar-se ao luxo de ser superficial nem preguiçoso – lírica ou sonicamente. Pelo menos não de uma maneira sistemática, endémica. E Born Like This, nesse aspecto, é um manifesto: não que o próprio DOOM seja um portento de conteúdo, mas apenas porque respeita o género enquanto legítima forma de expressão artística, não o tratando com a indigência intelectual que tantas vezes torna o hip hop um mero fenómeno subcultural de novo-riquismo, criativamente estanque.

 

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