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«Há-de vir o dia em que já não há mecânicos, não há nada»

 
   
 Literatura  | Teatro

Tuning

 Rodrigo Francisco, 2010

 

 

Poderá começar a conhecer-se pelo título a investida levada a cabo por esta peça. No entanto, Tuning, de Rodrigo Francisco, é menos um exercício teatral do que um fragmento, um fiapo, de vida. Sem complacências, ou paternalismos, a surda implosão destas vidas, trazida à luz pela escrita de R.F., consome-se, num lume lento, quase apagado, numa claridade frágil. Os seus limites são escassos, plenos de escolhos, espinhos; os horizontes que os espreitam, minados pela incerteza, murados de impossibilidades, mágoa. De «áspero estreitamento de horizontes» (p.14) fala, sintomaticamente, na sua proficiente introdução, Miguel-Pedro Quadrio. As actividades de tuning, encetadas por Pedro – vago sucedâneo da fantasia futebolística, mal enterrada, à saída da infância, à custa de uma lesão e do desapontamento –, mantidas pelos rufias que o rodeiam, são essa mesma afinação, essa melhoria, ao original que nos coube. A vida, se quisermos; os carros, talvez. O Mini, que calhou a Pedro afinar, por sorte ou azar de uma cliente com demasiados escrúpulos, é a pequena consolação, a bem pequena miragem do bom rapaz que não tem hipótese de se safar – naturalmente. E é essa inevitabilidade, sem qualquer laivo de fatalismo, antes convencida da fundura em que assentam as raízes do mal, que move os passos dramáticos de Tuning. Vão eles aonde forem, têm de falhar. Mecânicos de bairro, artífices de um mister cujo fim se profetiza, entre a tristeza e a resignação. Vidas de rastos, ao rés da ruína, com vigência a prazo, com tudo para falharem. Como único bálsamo, mais do que refrigério, aliás, algo como o ar que se respira, o carro, a fátua ilusão de fuga e de integração, de breve escape – «Não posso ficar sem o carro. Se lhes der o carro para cobrir o que falta fico sem nada.» (p.103)

 

A robustez da peça advém-lhe não só da espessura e verosimilhança das personagens, que deixam de o ser – para passar a ser pessoas – assim que se entra na trama, como da própria linguagem em que se exprimem, e das situações que testemunham o seu aparecimento. A nível estrutural, Tuning assenta numa moldura solidamente linear. Sem desvios, nem artifícios retóricos, percorre um fio condutor marcado pela tensão dramática, num movimento em crescendo, conducente a um desfecho trágico, que chega sem pompa, sem fanfarra, com a aceitação de quem deixa viver, por ter vivido. Por outro lado, são tudo menos ficcionados os referentes, as inquietações e lassitudes – assentes como estão num «processo inteligente e inteligível de consciencialização política» (M.-P.Q., p.15). São as próprias personagens que o sabem – «Ninguém inventa nada.» (p.79) Rendimentos vizinhos da miséria, vidas vigiadas por um medo em que se cai, uma pequena (grande) criminalidade associada a comportamentos de risco e a escapes condizentes, como a droga e a velocidade das corridas.

 
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