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«O romance é o grande virtuoso do excepcionalismo: consegue sempre livrar-se das regras com que o tentam manietar»

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 Literatura  |

A Mecânica da Ficção

 James Wood, 2010

 

 

Um dos méritos do livro de James Wood é, por certo, o de ter conseguido, como se propôs, «fazer as perguntas de um crítico e oferecer as respostas de um escritor» (p.15). Se, por um lado, o crítico se estriba, a cada passo, nos escritores e nas suas obras, as suas próprias soluções não desmerecem os mestres relidos, ou nomes menos prezados, como Graham Greene (dado como exemplo do que chama «realismo comercial», p.245), ou John Le Carré (a propósito de quem falará de «competente caixão de convenções mortas», p.247). Um desiderato cumprido – esse de «fazer perguntas teóricas, mas dar respostas práticas» (p.15) – a que se aliam, naturalmente, um arcaboiço literário e ensaístico que faz deste livro um interessante manual para quem pretenda enveredar pelos meandros da ficção. Acresce que a abordagem de J.W. consegue ser profunda sem ser excessivamente categórica, e rigorosa sem incorrer numa linguagem demasiado hermética ou cifrada – «um romance fracassa, não por as personagens não serem suficientemente vívidas ou profundas, mas quando não consegue que o leitor se adapte às suas convenções» (p.139). O rigor da sua leitura não impede uma saudável subjectividade – «O meu gosto pessoal tende para as personagens ficcionais mais ou menos esboçadas, cujas lacunas e omissões nos provocam, e nos tentam abrir caminho através dos seus baixios profundos» (p.125). E embora o seu método o aproxime – ainda que ao de leve – das posturas convencionais, já que alguns das rubricas do seu ensaio apontam para as tradicionais categorias da narrativa – narração, personagens, diálogo –, a verdade é que a sua leitura em muito extravasa esse espartilho. Torna-se, assim, a um tempo, mais aberta, em espectro, e flexível, nos seus processos, possibilitando divisões como «Flaubert e a narrativa moderna», ou «Uma breve história da consciência».

 

Marcado por um subtil cepticismo, uma ironia cauta, o autor não adopta um ponto de vista demasiado categórico – «creio que estas certezas [das regras muito claras] nos foram sendo retiradas ao longo da História» (p.20). Refutando Sebald, por exemplo, postulará que «a narração na primeira pessoa é geralmente mais fiável do que não-fiável» e que «a narração omnisciente na terceira pessoa é geralmente mais parcial do que omnisciente.» (p.21) Um dos elementos mais amplamente privilegiados por Wood é o estilo indirecto livre, concebido como «ponte» «entre autor e personagem» (p.27). Ao estudá-lo, Wood fará recuar a sua análise, numa espécie de arqueologia deste elemento fulcral da arte narrativa, a um passo, sabiamente escolhido, de «The Rape Of The Lock», de Alexander Pope (p.36).

 

Um dos mestres eleitos por Wood é, naturalmente, Flaubert, «fundador da narração ficcional moderna» (p.68). Numa fórmula tão concisa quanto iluminada, apresenta o autor de A Educação Sentimental como «ao mesmo tempo um realista e um estilista, um repórter e um poeta manqué» (p.67). Citando as fundamentais cartas do romancista, não deixará de frisar o seu «esforço para transformar prosa em poesia» (id.), notando, ainda, que «nenhum romancista fetichizou a poesia da “frase” da mesma forma, nenhum romancista levou àquele extremo a potencial separação de forma e conteúdo» (p.203). No entanto, a invocação do romancista não poderia esquecer a questão do realismo – embora o próprio Flaubert se considerasse, com muita lucidez, um realista sui generis, entre outros momentos, numa carta (nem mais) a Victor Hugo. É ao filósofo Duns Escoto que James Wood vai buscar o conceito de haecceitas, a que dá uma feição muito peculiar, e particularmente motivante: «qualquer detalhe que atraia a abstracção até si e depois pareça obliterar essa abstracção com uma baforada de palpabilidade, qualquer detalhe que centre a nossa atenção com a sua solidez» (p.83). Refere-se o crítico àquilo a que conhece como «palpabilidades precisas» (p.84). No entanto, Wood dará à noção de realismo um espaço mais amplo, que lhe permitirá reequacioná-lo – «O realismo dá-nos a aparência de realidade, mas é na verdade totalmente falso – aquilo a que Barthes chama “a ilusão referencial”.» (p.100), «um sistema de códigos convencionais, uma gramática tão omnipresente que já não damos conta que estrutura qualquer método burguês de contar histórias» (p.242). Assim, o ensaísta tem do realismo uma noção abrangente e amplificadora – «como fidelidade à maneira como as coisas são, não pode ser mera verosimilhança, não pode ser mera veracidade, mas sim o que eu chamo lifeness: a vida na página, a vida reanimada pela arte mais elevada» (p.262).

 

A sua análise consegue ser apaixonada sem perder de vista o prumo. Confrontando esteticismo e antiesteticismo, James Wood opõe autores que se «intrometem» àqueles para os quais «a personagem é tudo» (p.51). Com uma concepção abrangente e transversal da arte ficcional, James Wood não deixa de sublinhar que «o romance não dá respostas filosóficas (como disse Tchéckhov, é suficiente que coloque as questões certas» (p.195). De resto, conforme lembra, «a ficção não nos pede para acreditarmos em coisas (num sentido filosófico), mas sim para imaginarmos coisas (num sentido artístico).» (p.252) «O romance», dirá, de forma lapidar, James Wood, «é o grande virtuoso do excepcionalismo: consegue sempre livrar-se das regras com que o tentam manietar. E a personagem romanesca é o Houdini desse excepcionalismo.» (p.124) E é num passo de inegável virtuosismo que, por seu turno, Wood sintetiza os predicados inerentes a um escritor – «O verdadeiro escritor, o verdadeiro servo da vida, é aquele que age constantemente como se a vida fosse uma categoria muito além de qualquer coisa que o romance já tenha captado; como se a própria vida estivesse sempre à beira de se tornar convencional.» (p.263)

 

Refira-se a qualidade da tradução, confiada a Rogério Casanova, que soube contornar os múltiplos fossos idiomáticos, e outras armadilhas, alcançando uma versão portuguesa particularmente legível.

 
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