Arte & Design
| Banda Desenhada
Pyongyang: Journey in North Korea
Guy Delisle, 2006
É difícil saber
por onde começar. Que coisa é esta? Um estudo gráfico acerca de uma gigantesca
experiência sociopolítica? Uma banda desenhada acerca de um tema já tão
abordado, desgastado e reconstruído – a alienação perante a diferença? Um
catálogo de horrores? Talvez seja uma evocação astuta das democracias de
mercado; seria, afinal, um veículo inusitado, pouco controverso e largamente
apropriado a esse fim.
Mas não. Nada
disso. Ao invés de uma aproximação forçada, de uma contextualização geopolítica
cansativa e enfadonha, Guy Delisle propõe algo de muito mais simples e
interessante: um registo do quotidiano na capital da Coreia do Norte.
Como animador
profissional, o autor percorre toda a Ásia, em epopeias travestidas de
comissões de serviço. Mas somos levados a crer que nenhuma epopeia poderá
assemelhar-se a uma viagem ao âmago do mais estrambólico entre todos os países
estrambólicos. Ficamos, desde logo, a saber que a maior parte dos desenhos animados
do Canal Panda é produzida na Coreia do Norte. Que melhor e mais escarnecedor
início?
Depois de lermos
esta novela gráfica, se a podemos classificar dessa forma, percebemos que não
se trata de uma etiqueta obtusa. Pyongyang: A Journey in North Korea demonstra-o
bem: o bem mais escasso, acima do paralelo 38, não é a liberdade. Também não é
o pão, ainda que as fomes planeadas tenham causado uma hecatombe demográfica de
consequências incomensuráveis. À Coreia do Norte, falta, acima de tudo, senso
comum. Em jargão académico, diríamos que existe uma alteridade irredutível e o
autor não é capaz de negociar esses atritos de forma satisfatória. Digo-o eu:
ainda bem. A atitude sarcástica e desencantada de Delisle contribui para manter
um tom ligeiro, muito crítico e desprovido de moralismos bacocos, como tem sido
apanágio de certa intelligentsia iluminada. Viajar para a Coreia do
Norte acompanhado de uma cópia de 1984 revela, só por si, um raro
sentido de ironia.
Num país onde o
maior acto de rebeldia é ter o atrevimento de cultivar uma horta – até mesmo
nos terraços desnudados da capital –, a lógica subjacente à vida sublunar
desaparece, imersa numa realidade turva. Na baixa de Pyongyang, toda a gente
tem pressa, ninguém se detém em adoração reverencial ao grande líder e ninguém,
porque a curiosidade matou o gato (Guy também não os vê, em toda a viagem), se
atreve a deter o olhar naquele estrangeiro insubordinado ou ensandecido – porque
todos os não-nativos são acompanhados por um tradutor e por um guia. Passos vigiados
e experiências inflexivelmente definidas, num mundo rarefeito e perturbado,
onde todos os cidadãos são voluntários permanentes em nome da glória eterna do
grande líder. É impossível não soltar algumas gargalhadas involuntárias,
perante a avalanche de detalhes kafkianos e, sem ironia, carnavalescos (no
sentido obscuro do termo). E o pior é que, descobrimo-lo a pouco e pouco, a
vida dos norte-coreanos radica nesses detalhes, em dose mortífera para qualquer
juízo crítico nascente, percebemos que a existência da Coreia do Norte se deve
a uma descoberta insidiosa: afinal, talvez seja possível apagar a centelha
divina. Prometeu não andou por estas bandas. E, se andou, deve chorar enquanto
canta o hino nacional e tergiversa acerca do Juche, a ideologia norte-coreana.
De pouco valerá
enumerar os episódios desoladores e, necessariamente, fascinantes. São-no, e
pronto – o arrependimento do fascínio virá em seguida, garanto-vos. De tal
forma que limitam a necessidade de rasgos criativos ou mecanismos narrativos peculiares.
É uma leitura escorreita, potenciada pelo traço claro e crispado (visual e
moralmente) de Guy Delisle. O monocromático domina – sabemos que é uma escolha
autoral, mas a cor teria sido uma adição tremenda a esta novela gráfica intensa
e espartana, sem grandes rasgos de imaginação fantástica. Pensando bem, talvez
não. Talvez seja esta a mensagem final de Delisle: até as cores foram abolidas
por Kim Jong-Il, e é por isso que Pyongyang sugere uma realidade
calcinada.
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