Literatura
| Poesia
VVAA
Piolho 001, 2010
Depois de A Revista
Filha da Puta, Marquesa Negra ou Última Geração, António da Silva
Oliveira (n. 1958), “enfant terrible” das letras lusas, volta a agitar as águas
com a revista Piolho (n.º 1, Maio de
2010). Não é preciso muito para pôr a circular este género de “fanzine
poético”. Basta a cumplicidade de uns tantos escribas, folhas A4 dobradas e
agrafadas, a crueza do objecto em sintonia com a crueza das palavras. Com A.
Dasilva O. sempre foi assim. Conhecemo-lo enquanto autor de alguns dos livros
mais abjeccionistas de que há memória em Portugal: de Chocolates Choupe la Peace a Coração
Sujo, de Excrementos a Peidinhos, de Punhetas de Wagner a Teatro d’Abjecção. Além de escritor, foi
livreiro na extinta Pulga, é editor das Edições Mortas, vem sendo, desde os
idos de 1980, um coerente e obstinado perturbador do marasmo nacional. Piolho, a revista, é só mais «uma sebenta que circula de mão em mão /
Nesse charco que É o POEMA / COM NOVE BURACOS / QUE SANGRAM escárnio e maldizer
/ nesta época em que os poetas / se crepusculizam». Maldita seja.
Coordenado a quatro mãos (Sílvia C. Silva, Meireles de
Pinho, Ricardo Álvaro e A. Dasilva O.), o primeiro número abre com uma
prosa-manifesto, assinada por A. Dasilva O., intitulada Os Malefícios da Literatura. O programa está estabelecido: «dizer a verdade contra os representantes
da ordem social estabelecida» (p. 3). Mais à frente, do mesmo autor, alguns
poemas retomarão o tom, denunciando a «paz podre» que tomou conta do poema
(entenda-se puésia), ao mesmo tempo
que procuram expelir toda a porcaria que a maquilhagem sobre o corpo procura
disfarçar e dissimular. Estes textos são como uma lição de anatomia, a sua
“visceralidade” não deixa margem para ilusões. Opondo-se à contaminação do
sonambulismo social, despertam no leitor a utopia da verdade. Na verdade,
resta-nos admitir que não há verdade alguma que não possa ser resumida à
paradoxal insignificância do ser. Parte-se do princípio que é preciso desinchar
o ser de Ser, mostrar-lhe a sua composição e (des)construir a literatura a
partir deste pressuposto. A literatura só tem a agradecer tanta clareza, embora
nos custe acreditar que ao entrar-lhe o discurso por um ouvido não venha logo a
sair-lhe pelo outro.
Poemas de António Barahona e de Fernando Guerreiro, assim
como os três poemas de m. parissy que se seguem, são bons argumentos. Oferecem-nos
um lugar despreocupadamente à margem dos decretos oficiais. Sendo o que são e
sem que façam disso intenção, desrespeitam esses decretos. A poesia de tom
confessional, elegíaco, meramente descritivo ou memorialista, que vem fazendo
escola, assim como as preocupações de embelezamento imagético com metáforas por
vezes inalcançáveis, não têm assento nesta anti-cátedra. Por aqui não passa
qualquer tipo de ambição iniciática, nenhum desejo de figurar nas antologias,
nos compêndios, nenhuma ansiedade baptismal, nenhuma preocupação com ecos
mediáticos ou mediúnicos (que também os há, especialmente nas abadias onde se
cozinham todo o tipo de simpatias e afeições). Ironicamente, fecha esta Piolho com três traições aos poemas do
checo Jaroslav Seifert (1901-1986), Prémio Nobel da Literatura de 1984.
Responsabiliza-se pelo acto terrorista Sílvia C. Silva, que também assina três
textos em apetitoso registo de metáfora gastronómica.
Versos de Humberto Rocha, Pedro Águas, Ricardo Gil Soeiro,
A. Pedro Ribeiro, Zarelleci, Miguel Martins, João Pereira Matos, Ricardo Vil e
Ricardo Álvaro, assim como narrativas de Raul Simões Pinto, Nuno Brito e Rui
Costa, mais um drama de Suzana Guimarães, compõem o resto do ramalhete. Sem
escapar a uma postura mais ou menos ensaiada de contrapoder, alinham-se rimas
em toada rap (Suzana Guimarães),
sátiras de inspiração picaresca (Miguel Martins), incursões pelos timbres
exóticos do Brasil (Rui Costa), etc. Escatologia, anticlericalismo, sexualidade
explícita, situacionismo, um certo culto da maledicência, intervenção
anarquista, terrorismo poético, são alguns dos chavões que podemos utilizar
para caracterizar os conteúdos da Piolho – um objecto que me faz acreditar nem tudo ser, na poesia portuguesa, à moda
kantiana, ou seja, conforme o dever. Não consegui apurar a autoria das
ilustrações.
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